Por Claudia Godoy
Há conflitos que não terminam quando cessam os confrontos. Permanecem na memória das famílias, no silêncio dos desaparecidos, nas perguntas sem resposta e na vida cotidiana de quem cresce sob a sombra de uma fronteira disputada.
Foi durante um almoço oferecido à imprensa na sede da representação diplomática do Paquistão, em Brasília, que Irfan Ullah Khan, vice-embaixador paquistanês, falou sobre Jammu e Caxemira. Na ocasião, os convidados foram recebidos com a culinária do país, em uma seleção que reuniu as tradicionais samosas, outras iguarias paquistanesas e o gulab servido como sobremesa.

Entre sabores, aromas e texturas característicos da gastronomia paquistanesa, o diplomata defendeu uma solução pacífica para a região, baseada no diálogo, na diplomacia e no respeito às resoluções das Nações Unidas.
“Não pedimos que aceitem uma posição sem escrutínio. Pedimos que o povo de Jammu e Caxemira não seja esquecido e que suas histórias sejam ouvidas”, afirmou.
Uma questão ainda sem desfecho
A origem da disputa remonta à partilha da Índia britânica, em 1947. À época, Jammu e Caxemira era um Estado principesco de maioria muçulmana. A definição de seu futuro político desencadeou confrontos entre Índia e Paquistão e levou o caso ao Conselho de Segurança das Nações Unidas.

Segundo Khan, resoluções da ONU previram a realização de um plebiscito livre e imparcial para que a população decidisse se o território deveria aderir à Índia ou ao Paquistão. O plebiscito, no entanto, nunca foi realizado.
“A posição do Paquistão é de que o povo de Jammu e Caxemira deve poder exercer seu direito à autodeterminação, em conformidade com as resoluções do Conselho de Segurança das Nações Unidas”, disse o vice-embaixador.
Para o diplomata, não haverá paz duradoura enquanto a vontade dos habitantes da região não for considerada. A disputa, em sua avaliação, ultrapassa a dimensão territorial: envolve direitos, identidade, memória e o futuro de milhões de pessoas.
Direitos sob pressão
Khan também criticou as medidas adotadas pela Índia em 5 de agosto de 2019, quando o governo indiano revogou dispositivos constitucionais que concediam a Jammu e Caxemira um grau de autonomia. O Paquistão rejeita as mudanças e as considera medidas unilaterais.

Ao abordar a situação dos direitos humanos, o vice-embaixador mencionou preocupações manifestadas pelo Escritório de Direitos Humanos das Nações Unidas e por organizações internacionais. Entre os relatos citados estão o uso excessivo da força, detenções arbitrárias e o emprego de espingardas de chumbo, associado a mortes e lesões permanentes entre civis.
A declaração também fez referência a denúncias de execuções extrajudiciais, confrontos forjados, tortura, estupro e outras formas de violência sexual supostamente cometidas por integrantes das forças de segurança indianas. Khan defendeu a realização de investigações independentes e a responsabilização dos envolvidos.
“Essas graves denúncias exigem investigação independente e responsabilização. As vítimas e suas famílias merecem justiça”, afirmou.
O diplomata mencionou ainda restrições à liberdade de expressão, detenções de ativistas e pressões sobre jornalistas. Por trás dos relatórios, observou, estão pais preocupados com o futuro dos filhos, jovens em busca de oportunidades, famílias à procura de respostas sobre seus entes queridos e profissionais de imprensa que tentam relatar acontecimentos que afetam suas próprias comunidades.
O compromisso de informar
Ao falar aos jornalistas, Khan ressaltou o papel de uma imprensa livre em contextos marcados por versões conflitantes e sofrimento humano. Defendeu que os profissionais acompanhem os acontecimentos em Jammu e Caxemira, consultem pessoas com diferentes perspectivas, analisem as evidências disponíveis e mantenham uma cobertura independente e objetiva.
A imprensa, afirmou, pode dar visibilidade a vozes que, de outra maneira, permaneceriam silenciadas. Para o diplomata, ouvir essas vozes não significa abandonar o rigor jornalístico, mas ampliá-lo.
O Paquistão, segundo Khan, tem defendido de forma consistente uma solução pacífica para a disputa, em conformidade com a Carta das Nações Unidas e com as resoluções pertinentes do Conselho de Segurança.
O futuro do Sul da Ásia também esteve no centro de sua fala. A região abriga centenas de milhões de jovens que, segundo ele, merecem educação, oportunidades e esperança. Os recursos destinados à continuidade do confronto deveriam ser redirecionados ao desenvolvimento e ao bem-estar da população.
“Uma solução duradoura para a disputa da Caxemira seria uma contribuição importante para esse futuro”, declarou.
Khan destacou ainda a posição do Brasil como país comprometido com o diálogo e o multilateralismo. Disse valorizar a amizade entre os dois países e agradeceu a oportunidade de apresentar a perspectiva paquistanesa a jornalistas e cidadãos brasileiros.
Uma mensagem de solidariedade
Ao mencionar o chamado “Kashmir Black Day”, ou “Dia Negro da Caxemira”, o vice-embaixador dirigiu uma mensagem à população da região.
“Neste Dia Negro da Caxemira, desejo transmitir uma mensagem ao povo caxemiriano: o Paquistão se solidariza com vocês”, afirmou.
Segundo Khan, o Paquistão continuará oferecendo apoio moral, político e diplomático às aspirações da população de Jammu e Caxemira e defendendo uma solução pacífica e justa para a disputa.
Ao concluir, deixou uma imagem de futuro: o dia em que os habitantes da região possam viver em paz, com dignidade e liberdade, e em que suas crianças consigam olhar adiante com confiança.
As acusações e avaliações apresentadas na declaração correspondem à posição do governo paquistanês. Índia e Paquistão reivindicam Jammu e Caxemira e administram diferentes partes do território, que continua sendo um dos principais pontos de tensão entre os dois países. No centro da disputa, permanecem as pessoas — e a expectativa de que suas histórias sejam finalmente ouvidas.
Entenda o conflito:
Caxemira: um conflito que atravessa fronteiras e gerações
A disputa por Jammu e Caxemira é um dos mais antigos e delicados conflitos do Sul da Ásia. Ela começou em 1947, durante a partilha da Índia britânica, quando o antigo Estado principesco de Jammu e Caxemira — de maioria muçulmana — se tornou objeto de reivindicação da Índia e do Paquistão.
O território foi dividido entre áreas administradas pelos dois países, enquanto a China também controla uma parcela da região. Índia e Paquistão travaram guerras e continuam em confronto político e militar, separados em parte pela Linha de Controle, que funciona como uma fronteira de fato, mas não é reconhecida como solução definitiva para a disputa.
O Conselho de Segurança das Nações Unidas aprovou resoluções que previam um plebiscito para que a população decidisse o futuro do território. A consulta nunca foi realizada. O Paquistão defende a autodeterminação dos habitantes de Jammu e Caxemira; a Índia considera o território parte integrante do país. A questão segue sem acordo e permanece como importante foco de tensão regional.

Nota cartográfica: o mapa é esquemático e tem finalidade exclusivamente explicativa. As áreas coloridas indicam administrações de fato, não fronteiras internacionais reconhecidas.
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