terça-feira, 27 outubro, 2026
28.5 C
Brasília

Entre a memória e a esperança, a voz da Caxemira ecoa em Brasília

Por Claudia Godoy

Há conflitos que não terminam quando cessam os confrontos. Permanecem na memória das famílias, no silêncio dos desaparecidos, nas perguntas sem resposta e na vida cotidiana de quem cresce sob a sombra de uma fronteira disputada.

Foi durante um almoço oferecido à imprensa na sede da representação diplomática do Paquistão, em Brasília, que Irfan Ullah Khan, vice-embaixador paquistanês, falou sobre Jammu e Caxemira. Na ocasião, os convidados foram recebidos com a culinária do país, em uma seleção que reuniu as tradicionais samosas, outras iguarias paquistanesas e o gulab servido como sobremesa.

A declaração foi feita durante um almoço oferecido à imprensa na sede da representação diplomática paquistanesa, em Brasília. Na ocasião, os convidados também puderam conhecer um pouco da gastronomia do país, em um menu marcado por sabores, aromas e texturas da culinária paquistanesa — com destaque para as samosas e outras iguarias tradicionais. Fotos: Claudia Godoy

Entre sabores, aromas e texturas característicos da gastronomia paquistanesa, o diplomata defendeu uma solução pacífica para a região, baseada no diálogo, na diplomacia e no respeito às resoluções das Nações Unidas.

“Não pedimos que aceitem uma posição sem escrutínio. Pedimos que o povo de Jammu e Caxemira não seja esquecido e que suas histórias sejam ouvidas”, afirmou.

Uma questão ainda sem desfecho

A origem da disputa remonta à partilha da Índia britânica, em 1947. À época, Jammu e Caxemira era um Estado principesco de maioria muçulmana. A definição de seu futuro político desencadeou confrontos entre Índia e Paquistão e levou o caso ao Conselho de Segurança das Nações Unidas.

“A posição do Paquistão é de que o povo de Jammu e Caxemira deve poder exercer seu direito à autodeterminação, em conformidade com as resoluções do Conselho de Segurança das Nações Unidas”, disse o vice-embaixador. Jornalistas como Claudia Godoy, que já esteve no Paquistão para acompanhar a TEXPO, Feira Internacional de Têxteis, e Ivan Godoy estavam presentes.

Segundo Khan, resoluções da ONU previram a realização de um plebiscito livre e imparcial para que a população decidisse se o território deveria aderir à Índia ou ao Paquistão. O plebiscito, no entanto, nunca foi realizado.

“A posição do Paquistão é de que o povo de Jammu e Caxemira deve poder exercer seu direito à autodeterminação, em conformidade com as resoluções do Conselho de Segurança das Nações Unidas”, disse o vice-embaixador.

Para o diplomata, não haverá paz duradoura enquanto a vontade dos habitantes da região não for considerada. A disputa, em sua avaliação, ultrapassa a dimensão territorial: envolve direitos, identidade, memória e o futuro de milhões de pessoas.

Direitos sob pressão

Khan também criticou as medidas adotadas pela Índia em 5 de agosto de 2019, quando o governo indiano revogou dispositivos constitucionais que concediam a Jammu e Caxemira um grau de autonomia. O Paquistão rejeita as mudanças e as considera medidas unilaterais.

Durante um almoço oferecido à imprensa na sede da representação diplomática do Paquistão, em Brasília, o vice-embaixador Irfan Ullah Khan defendeu o direito de autodeterminação da população de Jammu e Caxemira e pediu uma solução pacífica para a disputa entre Paquistão e Índia.

Ao abordar a situação dos direitos humanos, o vice-embaixador mencionou preocupações manifestadas pelo Escritório de Direitos Humanos das Nações Unidas e por organizações internacionais. Entre os relatos citados estão o uso excessivo da força, detenções arbitrárias e o emprego de espingardas de chumbo, associado a mortes e lesões permanentes entre civis.

A declaração também fez referência a denúncias de execuções extrajudiciais, confrontos forjados, tortura, estupro e outras formas de violência sexual supostamente cometidas por integrantes das forças de segurança indianas. Khan defendeu a realização de investigações independentes e a responsabilização dos envolvidos.

“Essas graves denúncias exigem investigação independente e responsabilização. As vítimas e suas famílias merecem justiça”, afirmou.

O diplomata mencionou ainda restrições à liberdade de expressão, detenções de ativistas e pressões sobre jornalistas. Por trás dos relatórios, observou, estão pais preocupados com o futuro dos filhos, jovens em busca de oportunidades, famílias à procura de respostas sobre seus entes queridos e profissionais de imprensa que tentam relatar acontecimentos que afetam suas próprias comunidades.

O compromisso de informar

Ao falar aos jornalistas, Khan ressaltou o papel de uma imprensa livre em contextos marcados por versões conflitantes e sofrimento humano. Defendeu que os profissionais acompanhem os acontecimentos em Jammu e Caxemira, consultem pessoas com diferentes perspectivas, analisem as evidências disponíveis e mantenham uma cobertura independente e objetiva.

A imprensa, afirmou, pode dar visibilidade a vozes que, de outra maneira, permaneceriam silenciadas. Para o diplomata, ouvir essas vozes não significa abandonar o rigor jornalístico, mas ampliá-lo.

O Paquistão, segundo Khan, tem defendido de forma consistente uma solução pacífica para a disputa, em conformidade com a Carta das Nações Unidas e com as resoluções pertinentes do Conselho de Segurança.

O futuro do Sul da Ásia também esteve no centro de sua fala. A região abriga centenas de milhões de jovens que, segundo ele, merecem educação, oportunidades e esperança. Os recursos destinados à continuidade do confronto deveriam ser redirecionados ao desenvolvimento e ao bem-estar da população.

“Uma solução duradoura para a disputa da Caxemira seria uma contribuição importante para esse futuro”, declarou.

Khan destacou ainda a posição do Brasil como país comprometido com o diálogo e o multilateralismo. Disse valorizar a amizade entre os dois países e agradeceu a oportunidade de apresentar a perspectiva paquistanesa a jornalistas e cidadãos brasileiros.

Uma mensagem de solidariedade

Ao mencionar o chamado “Kashmir Black Day”, ou “Dia Negro da Caxemira”, o vice-embaixador dirigiu uma mensagem à população da região.

“Neste Dia Negro da Caxemira, desejo transmitir uma mensagem ao povo caxemiriano: o Paquistão se solidariza com vocês”, afirmou.

Segundo Khan, o Paquistão continuará oferecendo apoio moral, político e diplomático às aspirações da população de Jammu e Caxemira e defendendo uma solução pacífica e justa para a disputa.

Ao concluir, deixou uma imagem de futuro: o dia em que os habitantes da região possam viver em paz, com dignidade e liberdade, e em que suas crianças consigam olhar adiante com confiança.

As acusações e avaliações apresentadas na declaração correspondem à posição do governo paquistanês. Índia e Paquistão reivindicam Jammu e Caxemira e administram diferentes partes do território, que continua sendo um dos principais pontos de tensão entre os dois países. No centro da disputa, permanecem as pessoas — e a expectativa de que suas histórias sejam finalmente ouvidas.

Entenda o conflito: 

Caxemira: um conflito que atravessa fronteiras e gerações

A disputa por Jammu e Caxemira é um dos mais antigos e delicados conflitos do Sul da Ásia. Ela começou em 1947, durante a partilha da Índia britânica, quando o antigo Estado principesco de Jammu e Caxemira — de maioria muçulmana — se tornou objeto de reivindicação da Índia e do Paquistão.

O território foi dividido entre áreas administradas pelos dois países, enquanto a China também controla uma parcela da região. Índia e Paquistão travaram guerras e continuam em confronto político e militar, separados em parte pela Linha de Controle, que funciona como uma fronteira de fato, mas não é reconhecida como solução definitiva para a disputa.

O Conselho de Segurança das Nações Unidas aprovou resoluções que previam um plebiscito para que a população decidisse o futuro do território. A consulta nunca foi realizada. O Paquistão defende a autodeterminação dos habitantes de Jammu e Caxemira; a Índia considera o território parte integrante do país. A questão segue sem acordo e permanece como importante foco de tensão regional.

Nota cartográfica: o mapa é esquemático e tem finalidade exclusivamente explicativa. As áreas coloridas indicam administrações de fato, não fronteiras internacionais reconhecidas.

spot_img
spot_img
spot_img
spot_img
spot_img