Por Claudia Godoy
A reeleição de Lula abre uma nova temporada para o comércio entre Brasil e Vietnã
A reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva, confirmada neste domingo, 25 de outubro, recoloca o Brasil no centro das expectativas comerciais do Vietnã. Com 64,2 milhões de votos, equivalentes a 51,79% dos votos válidos, Lula derrotou Flávio Bolsonaro e garantiu um novo mandato para o período de 2027 a 2031.
A vitória foi o suficiente para assegurar a continuidade de uma política externa voltada à aproximação com a Ásia, ao fortalecimento do Mercosul e à ampliação das relações entre países do Sul Global. Em Hanói, a resposta foi imediata. O secretário-geral do Partido Comunista do Vietnã e presidente do país, Tô Lâm, e o primeiro-ministro Lê Minh Hưng enviaram mensagens de congratulação ao presidente reeleito.
Com 64.256.232 votos, Luiz Inácio Lula da Silva alcançou, no segundo turno das eleições de 2026, a maior votação absoluta já registrada por um candidato à Presidência da República no Brasil. O resultado corresponde a 51,79% dos votos válidos e garantiu sua reeleição diante de Flávio Bolsonaro, que recebeu 59.826.041 votos.
O recorde anterior também pertencia a Lula. Em 2022, ao derrotar Jair Bolsonaro, o petista obteve 60.345.999 votos. Assim, a votação de 2026 superou a marca anterior em 3.910.233 votos. O número também ultrapassa os 58.295.042 votos recebidos por Lula no segundo turno de 2006, quando foi reeleito para seu segundo mandato consecutivo.
A comparação, no entanto, exige uma distinção entre quantidade absoluta de votos e percentual dos votos válidos. Embora tenha conquistado a maior votação numérica da história, Lula não obteve em 2026 seu maior percentual. Em 2006, ele venceu Geraldo Alckmin com 60,83% dos votos válidos — índice superior aos 51,79% alcançados na eleição deste domingo.

Mais do que uma formalidade diplomática, o gesto revela o interesse vietnamita em preservar o ritmo da parceria estratégica construída com o Brasil nos últimos anos. A relação comercial já atravessa uma fase de expansão. Apenas no primeiro semestre de 2026, a corrente de comércio entre os dois países chegou a US$ 4,22 bilhões, alta de 16,8% em relação ao mesmo período do ano anterior.
O Brasil exportou mais de US$ 2 bilhões para o Vietnã, enquanto as importações de produtos vietnamitas alcançaram aproximadamente US$ 2,11 bilhões. A fotografia é reveladora: o comércio bilateral está mais equilibrado e menos dependente de uma relação baseada apenas em matérias-primas brasileiras e produtos manufaturados asiáticos.

O próximo movimento está nas negociações de um Acordo de Comércio Preferencial entre o Vietnã e o Mercosul. A primeira rodada, realizada em Buenos Aires entre 24 e 28 de agosto, abriu oficialmente uma frente que pode reduzir tarifas, simplificar regras e facilitar a circulação de mercadorias entre o Sudeste Asiático e a América do Sul.
Para o empresariado vietnamita, a reeleição de Lula oferece previsibilidade. O governo brasileiro já havia demonstrado interesse em aproximar o Mercosul da Ásia e apoiado o avanço das negociações com o Vietnã. A permanência do mesmo grupo político no poder reduz o risco de uma mudança brusca de direção e mantém aberta a agenda iniciada nos últimos anos.
A expectativa, entretanto, não se limita aos gabinetes presidenciais. Em outubro, o embaixador vietnamita no Brasil, Bùi Văn Nghị, reuniu-se com representantes da Fecomercio-SP e da Fiesp para defender maior participação das empresas brasileiras nas negociações. O diplomata também estimulou encontros de negócios, missões empresariais e parcerias entre fornecedores vietnamitas e distribuidores brasileiros.
O setor de alimentos aparece como uma das vitrines mais promissoras dessa aproximação. O Vietnã quer ampliar a entrada de pescados, frutas tropicais e produtos processados no mercado brasileiro. O Brasil, por sua vez, busca mais espaço para carnes, grãos, algodão e alimentos de maior valor agregado no mercado vietnamita.
A tilápia é um dos exemplos mais recentes dessa mudança. Em 2026, o Brasil se tornou um dos mercados de crescimento mais rápido para o pescado vietnamita. O movimento mostra que a relação começa a ganhar novas camadas, deixando para trás uma pauta concentrada em soja, milho, ração animal, eletrônicos e calçados.
Para Lula, o desafio do novo mandato será transformar essa expansão em presença econômica duradoura. Isso significa abrir espaço para máquinas, aeronaves, tecnologia, serviços, inovação e investimentos cruzados. Também significa fazer com que o Brasil deixe de ser visto apenas como um grande fornecedor de commodities.
Para o Vietnã, o Brasil representa mais do que um mercado consumidor. É uma possível porta de entrada para o Mercosul e para uma região de mais de 260 milhões de pessoas. Para o Brasil, Hanói oferece acesso a uma das economias industriais mais dinâmicas do mundo, integrada às cadeias produtivas de eletrônicos, têxteis, alimentos e tecnologia.
A nova temporada começa com sinais favoráveis, mas não será definida apenas por declarações de amizade. O resultado dependerá de tarifas, regras de origem, exigências sanitárias, logística e disposição política para acomodar interesses diferentes dentro do Mercosul.
A eleição deste domingo não criou essa aproximação. Mas confirmou sua direção. Entre Hanói e Brasília, o próximo capítulo será menos protocolar e mais estratégico: uma disputa por espaço, influência e acesso em um comércio que finalmente começa a abandonar o básico para apostar em algo mais sofisticado.
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