Por Claudia Godoy
Depois da vitória de Lula no segundo turno, Washington terá de recalibrar sua estratégia para a América Latina. Brasília, por sua vez, tentará transformar independência diplomática em poder de negociação.

Na noite de domingo, 25 de outubro, Luiz Inácio Lula da Silva não apenas venceu uma eleição. Ele interrompeu a sequência de vitórias conservadoras que vinha redesenhando a América Latina e garantiu um quarto mandato com 51,79% dos votos, contra 48,21% de Flávio Bolsonaro.

O significado internacional da vitória de Lula é amplo. O Brasil continua sendo uma potência regional que não pretende vestir o figurino político escolhido por Washington.
Com 64.256.232 votos, Luiz Inácio Lula da Silva alcançou, no segundo turno das eleições de 2026, a maior votação absoluta já registrada por um candidato à Presidência da República no Brasil. O resultado corresponde a 51,79% dos votos válidos e garantiu sua reeleição diante de Flávio Bolsonaro, que recebeu 59.826.041 votos.
O recorde anterior também pertencia a Lula. Em 2022, ao derrotar Jair Bolsonaro, o petista obteve 60.345.999 votos. Assim, a votação de 2026 superou a marca anterior em 3.910.233 votos. O número também ultrapassa os 58.295.042 votos recebidos por Lula no segundo turno de 2006, quando foi reeleito para seu segundo mandato consecutivo.
A comparação, no entanto, exige uma distinção entre quantidade absoluta de votos e percentual dos votos válidos. Embora tenha conquistado a maior votação numérica da história, Lula não obteve em 2026 seu maior percentual. Em 2006, ele venceu Geraldo Alckmin com 60,83% dos votos válidos — índice superior aos 51,79% alcançados na eleição deste domingo.
O primeiro sinal da nova temporada veio menos por uma declaração do que por um silêncio. Enquanto líderes europeus, asiáticos e latino-americanos parabenizavam Lula, Donald Trump demorava a reconhecer publicamente o resultado. A hesitação expôs o desconforto de uma Casa Branca que apostava na vitória de Flávio Bolsonaro como a peça final de uma aliança conservadora no hemisfério.
Para Washington, o Brasil seria um aliado mais previsível — e provavelmente mais disposto a aderir à agenda americana de segurança e contenção da China. O resultado das urnas redesenhou essa expectativa.
Mas a diplomacia, como a moda, raramente é feita de uma única cor. A relação entre Brasil e Estados Unidos não deve romper. Deve ser ajustada.
O comércio, os investimentos e a dimensão estratégica do território brasileiro criam incentivos fortes para que os dois governos encontrem um modo de conviver, mesmo em desacordo. Washington quer acesso aos minerais críticos e às terras raras brasileiras, importantes para reduzir sua dependência industrial em relação à China. Brasília quer aliviar tarifas, proteger seus exportadores e atrair investimentos que ajudem o país a processar seus próprios recursos.
É aí que estará o ponto de maior tensão.
Lula não deverá aceitar que a cooperação mineral seja apresentada como uma escolha entre os Estados Unidos e a China. Sua política externa tende a preservar a autonomia brasileira e a negociar com múltiplos parceiros.
A China já é o principal destino das exportações brasileiras, enquanto o Brasil mantém com os Estados Unidos uma relação econômica profunda e historicamente relevante. Para o governo Lula, a estratégia será transformar essa concorrência em vantagem: receber investimentos de ambos os lados, mas exigir transferência de tecnologia, industrialização e empregos no país.
A retórica presidencial também aponta para uma relação mais assertiva. Em seu discurso de vitória, Lula afirmou que o Brasil “não aceita ser quintal de ninguém” e defendeu uma política externa que não fale grosso com países menores e fino com os Estados Unidos.
A frase funciona como manifesto e aviso. Brasília poderá cooperar com Washington, mas não pretende aderir automaticamente à sua agenda. Segurança, comércio, clima e governança digital serão negociados a partir de uma posição de soberania — não de alinhamento automático.
O tema digital promete ser especialmente sensível. Lula denunciou a interferência estrangeira por meio de plataformas digitais, sem citar diretamente governos. A crítica deve alimentar discussões com os Estados Unidos, onde empresas de tecnologia e setores políticos acompanham de perto qualquer tentativa brasileira de ampliar a regulação das redes.
A eleição, portanto, abre uma frente que vai além de tarifas e minerais: quem define as regras do espaço público digital? E como combater campanhas de desinformação sem restringir a liberdade de expressão?
Há ainda o fator ideológico. Setores do governo americano veem o Partido dos Trabalhadores com desconfiança, sobretudo por sua posição diante de Cuba, Nicarágua e Venezuela. Trump, por outro lado, tende a operar com maior pragmatismo quando identifica interesses econômicos ou líderes politicamente fortes.
Essa possível divisão dentro do governo americano pode abrir espaço para uma diplomacia transacional: menos afinidade política, mais barganha direta.
O resultado mais provável é uma relação funcional, mas fria. Não haverá lua de mel. Haverá reuniões, grupos de trabalho, pressão tarifária, negociações sobre minerais e disputas públicas em torno da soberania.
Lula tentará se apresentar como ponte entre o Sul Global, a Europa, a China e os Estados Unidos. Trump poderá testar os limites dessa independência com tarifas e exigências estratégicas.
A nova silhueta das relações Brasil–EUA será marcada pelo contraste: cooperação econômica com distância política; diálogo institucional com retórica nacionalista; interesse mútuo sem submissão.
Lula venceu a eleição prometendo que o Brasil não seria quintal de ninguém. Agora precisará provar que pode transformar essa frase em uma política externa com corte preciso, acabamento consistente e espaço suficiente para não depender de uma única potência.
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