terça-feira, 27 outubro, 2026
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Brasil–EUA: a nova temporada de uma relação sem margem para improviso

Por Claudia Godoy 

Depois da vitória de Lula no segundo turno, Washington terá de recalibrar sua estratégia para a América Latina. Brasília, por sua vez, tentará transformar independência diplomática em poder de negociação.

O resultado mais provável é uma relação funcional, mas fria. Não haverá lua de mel. Haverá reuniões, grupos de trabalho, pressão tarifária, negociações sobre minerais e disputas públicas sobre soberania. Lula tentará se apresentar como ponte entre o Sul Global, a Europa, a China e os Estados Unidos. Trump poderá testar os limites dessa independência com tarifas e exigências estratégicas. Fotos Públicas

Na noite de domingo, 25 de outubro, Luiz Inácio Lula da Silva não apenas venceu uma eleição. Ele interrompeu a sequência de vitórias conservadoras que vinha redesenhando a América Latina e garantiu um quarto mandato com 51,79% dos votos, contra 48,21% de Flávio Bolsonaro.

Há ainda o fator ideológico. O secretário de Estado Marco Rubio e setores republicanos veem o Partido dos Trabalhadores com desconfiança, sobretudo por sua posição diante de Cuba, Nicarágua e Venezuela. Trump, por outro lado, tende a operar com maior pragmatismo quando identifica interesses econômicos ou líderes politicamente fortes. Essa possível divisão dentro do governo americano pode abrir espaço para uma diplomacia transacional: menos afinidade política, mais barganha direta. Fotos Públicas

O significado internacional da vitória de Lula é amplo. O Brasil continua sendo uma potência regional que não pretende vestir o figurino político escolhido por Washington.

Com 64.256.232 votos, Luiz Inácio Lula da Silva alcançou, no segundo turno das eleições de 2026, a maior votação absoluta já registrada por um candidato à Presidência da República no Brasil. O resultado corresponde a 51,79% dos votos válidos e garantiu sua reeleição diante de Flávio Bolsonaro, que recebeu 59.826.041 votos.

O recorde anterior também pertencia a Lula. Em 2022, ao derrotar Jair Bolsonaro, o petista obteve 60.345.999 votos. Assim, a votação de 2026 superou a marca anterior em 3.910.233 votos. O número também ultrapassa os 58.295.042 votos recebidos por Lula no segundo turno de 2006, quando foi reeleito para seu segundo mandato consecutivo.

A comparação, no entanto, exige uma distinção entre quantidade absoluta de votos e percentual dos votos válidos. Embora tenha conquistado a maior votação numérica da história, Lula não obteve em 2026 seu maior percentual. Em 2006, ele venceu Geraldo Alckmin com 60,83% dos votos válidos — índice superior aos 51,79% alcançados na eleição deste domingo.

O primeiro sinal da nova temporada veio menos por uma declaração do que por um silêncio. Enquanto líderes europeus, asiáticos e latino-americanos parabenizavam Lula, Donald Trump demorava a reconhecer publicamente o resultado. A hesitação expôs o desconforto de uma Casa Branca que apostava na vitória de Flávio Bolsonaro como a peça final de uma aliança conservadora no hemisfério.

Para Washington, o Brasil seria um aliado mais previsível — e provavelmente mais disposto a aderir à agenda americana de segurança e contenção da China. O resultado das urnas redesenhou essa expectativa.

Mas a diplomacia, como a moda, raramente é feita de uma única cor. A relação entre Brasil e Estados Unidos não deve romper. Deve ser ajustada.

O comércio, os investimentos e a dimensão estratégica do território brasileiro criam incentivos fortes para que os dois governos encontrem um modo de conviver, mesmo em desacordo. Washington quer acesso aos minerais críticos e às terras raras brasileiras, importantes para reduzir sua dependência industrial em relação à China. Brasília quer aliviar tarifas, proteger seus exportadores e atrair investimentos que ajudem o país a processar seus próprios recursos.

É aí que estará o ponto de maior tensão.

Lula não deverá aceitar que a cooperação mineral seja apresentada como uma escolha entre os Estados Unidos e a China. Sua política externa tende a preservar a autonomia brasileira e a negociar com múltiplos parceiros.

A China já é o principal destino das exportações brasileiras, enquanto o Brasil mantém com os Estados Unidos uma relação econômica profunda e historicamente relevante. Para o governo Lula, a estratégia será transformar essa concorrência em vantagem: receber investimentos de ambos os lados, mas exigir transferência de tecnologia, industrialização e empregos no país.

A retórica presidencial também aponta para uma relação mais assertiva. Em seu discurso de vitória, Lula afirmou que o Brasil “não aceita ser quintal de ninguém” e defendeu uma política externa que não fale grosso com países menores e fino com os Estados Unidos.

A frase funciona como manifesto e aviso. Brasília poderá cooperar com Washington, mas não pretende aderir automaticamente à sua agenda. Segurança, comércio, clima e governança digital serão negociados a partir de uma posição de soberania — não de alinhamento automático.

O tema digital promete ser especialmente sensível. Lula denunciou a interferência estrangeira por meio de plataformas digitais, sem citar diretamente governos. A crítica deve alimentar discussões com os Estados Unidos, onde empresas de tecnologia e setores políticos acompanham de perto qualquer tentativa brasileira de ampliar a regulação das redes.

A eleição, portanto, abre uma frente que vai além de tarifas e minerais: quem define as regras do espaço público digital? E como combater campanhas de desinformação sem restringir a liberdade de expressão?

Há ainda o fator ideológico. Setores do governo americano veem o Partido dos Trabalhadores com desconfiança, sobretudo por sua posição diante de Cuba, Nicarágua e Venezuela. Trump, por outro lado, tende a operar com maior pragmatismo quando identifica interesses econômicos ou líderes politicamente fortes.

Essa possível divisão dentro do governo americano pode abrir espaço para uma diplomacia transacional: menos afinidade política, mais barganha direta.

O resultado mais provável é uma relação funcional, mas fria. Não haverá lua de mel. Haverá reuniões, grupos de trabalho, pressão tarifária, negociações sobre minerais e disputas públicas em torno da soberania.

Lula tentará se apresentar como ponte entre o Sul Global, a Europa, a China e os Estados Unidos. Trump poderá testar os limites dessa independência com tarifas e exigências estratégicas.

A nova silhueta das relações Brasil–EUA será marcada pelo contraste: cooperação econômica com distância política; diálogo institucional com retórica nacionalista; interesse mútuo sem submissão.

Lula venceu a eleição prometendo que o Brasil não seria quintal de ninguém. Agora precisará provar que pode transformar essa frase em uma política externa com corte preciso, acabamento consistente e espaço suficiente para não depender de uma única potência.

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