Por Claudia Godoy
Durante celebração da Data Nacional espanhola em Brasília, embaixadores destacaram o fortalecimento do diálogo político, os laços econômicos e a aproximação cultural entre os dois países
A Espanha e o Brasil deram novo impulso à parceria estratégica bilateral em 2026, com a realização da primeira Cúpula Brasil-Espanha, em abril, em Barcelona. A avaliação foi apresentada durante a celebração da Data Nacional espanhola, realizada em Brasília, que reuniu autoridades, representantes do corpo diplomático, empresários e convidados.
Em discurso na cerimônia, o embaixador secretário de Europa e América do Norte do Ministério das Relações Exteriores, Roberto Abdalla, afirmou que o encontro celebrava não apenas a história e a cultura espanholas, mas também os profundos laços que unem os dois países há várias gerações.
“É uma honra participar, nesta noite, das celebrações da Data Nacional da Espanha, país cuja história e cultura estão entre as mais respeitadas e admiradas do mundo”, declarou.
Segundo Abdalla, a Cúpula de Barcelona elevou o diálogo político regular entre Brasil e Espanha ao mais alto nível, com a participação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e do presidente do governo espanhol, Pedro Sánchez. O encontro também resultou na assinatura de 15 acordos em áreas como minerais críticos, transição energética, sustentabilidade, inovação, internacionalização de pequenas e médias empresas e combate à violência contra a mulher.

“Trata-se de uma agenda abrangente, que reflete a disposição comum de assegurar que a cooperação propicie benefícios concretos para as nossas cidadãs e cidadãos”, afirmou o representante do Itamaraty.
Relações econômicas
O embaixador destacou ainda a dimensão econômica do relacionamento bilateral. A Espanha é atualmente a oitava maior parceira comercial do Brasil e o quinto principal destino das exportações brasileiras. A corrente de comércio entre os dois países alcançou US$ 12,6 bilhões.
A embaixadora da Espanha no Brasil, Consuelo Femenía Guardiola, também ressaltou a presença espanhola na economia brasileira. De acordo com ela, mais de 2 mil empresas brasileiras com capital espanhol atuam no país, gerando empregos e contribuindo para investimentos em inovação e tecnologia.
“A Espanha continua sendo um dos principais investidores estrangeiros no Brasil”, afirmou Consuelo.
A diplomata avaliou que a relação entre os dois países atingiu, nos últimos anos, “um nível de maturidade e de solidez sem precedentes”. Para ela, a Cúpula de Barcelona reafirmou a disposição de Brasília e Madri de aprofundar a cooperação bilateral e de atuar conjuntamente em temas da agenda internacional.

Em um cenário de enfraquecimento do multilateralismo e aumento da polarização, Brasil e Espanha defendem, segundo Consuelo, uma governança global mais eficaz, inclusiva e justa. Os dois países também compartilham posições em defesa da democracia e no combate aos radicalismos e à desinformação.
A embaixadora citou ainda a atuação conjunta contra a fome, a pobreza e a desigualdade, com destaque para a Aliança Global contra a Fome e a Pobreza.
Vínculos históricos e humanos
Além das relações políticas e comerciais, os discursos destacaram os vínculos humanos entre brasileiros e espanhóis. Consuelo mencionou os efeitos da Lei da Memória Democrática, que permitiu a milhares de brasileiros descendentes de espanhóis recuperar a nacionalidade de pais e avós.
A embaixadora agradeceu aos consulados espanhóis e aos cônsules honorários pelo trabalho no atendimento à comunidade espanhola e pela análise do expressivo volume de pedidos de nacionalidade.


Brasil e Espanha também integram o espaço ibero-americano, formado por países unidos por vínculos históricos, culturais e linguísticos. Consuelo ressaltou que o português e o espanhol, juntos, constituem um importante eixo de projeção internacional, com quase 800 milhões de falantes nativos.
A diplomata citou a realização, em Madri, da 30ª Cúpula Ibero-Americana, que reunirá os 22 países da comunidade. Segundo ela, o encontro deverá contribuir para fortalecer os vínculos entre as nações e estimular uma integração regional e birregional capaz de enfrentar desafios globais.
Nesse processo, afirmou, o Brasil tem papel fundamental em razão de sua dimensão, diversidade e peso internacional.
Aproximação entre Europa e América Latina
Outro destaque dos discursos foi o avanço das relações entre a União Europeia e o Mercosul. Consuelo afirmou que a Espanha trabalhou desde o início para viabilizar o acordo entre os dois blocos, por considerar o Brasil um parceiro estratégico fundamental para a Europa.
“A Espanha tem trabalhado desde o princípio para tornar isso possível, convencida de que o Brasil é um parceiro estratégico fundamental para a Europa”, declarou.
A cooperação bilateral também avançou em áreas como educação, agricultura, relações trabalhistas, defesa e segurança pública. Para a embaixadora, o ano foi marcado por encontros e resultados positivos em diferentes setores.
Cultura, arquitetura e o legado de Gaudí
A programação da celebração também valorizou a cultura espanhola. Consuelo lembrou que a Espanha foi o país convidado da Bienal do Livro de São Paulo e promoveu, em Brasília e na capital paulista, uma exposição com reproduções de obras do Museu Thyssen-Bornemisza.
O evento também prestou homenagem ao arquiteto catalão Antoni Gaudí, um dos grandes nomes do modernismo espanhol. Embora muitas vezes seja associado de forma genérica às artes plásticas, Gaudí foi, essencialmente, arquiteto — e não pintor —, além de ter desenvolvido uma obra marcada pela integração entre arquitetura, escultura, design e formas inspiradas na natureza.
O principal marco histórico relacionado ao artista ocorre justamente em 2026, quando é lembrado o centenário de sua morte. Gaudí morreu em 10 de junho de 1926, aos 73 anos, depois de ser atropelado por um bonde em Barcelona. Nascido em 25 de junho de 1852, ele completaria 174 anos em 2026.
O ano foi oficialmente declarado Ano Gaudí, com exposições, atividades educativas e ações de preservação e restauração de seu legado. Barcelona concentra parte importante das celebrações, especialmente em torno das obras concebidas pelo arquiteto a partir de referências da natureza, da geometria e da experiência humana dos espaços.
Também existe a expectativa de que a conclusão de etapas importantes da Basílica da Sagrada Família coincida com as homenagens do centenário.
Durante a recepção, Consuelo comparou Gaudí ao arquiteto brasileiro Oscar Niemeyer. Embora tenham pertencido a períodos e seguido linguagens arquitetônicas diferentes, os dois, segundo ela, compartilharam a audácia de imaginar o que ainda não existia, desafiar formas convencionais e transformar a arquitetura em emoção.
Sabores da Espanha
A gastronomia espanhola foi outro destaque da noite. Os convidados puderam experimentar pratos tradicionais, como o jamón Pata Negra, um dos produtos mais conhecidos e apreciados da culinária espanhola em todo o mundo.
Também foram servidas paellas de diversos sabores, preparadas para valorizar a diversidade da cozinha espanhola. Os pratos chamaram a atenção dos convidados e deixaram o público encantado, reforçando o papel da gastronomia como instrumento de aproximação cultural entre os dois países.
Ao encerrar o discurso, a embaixadora agradeceu a presença dos convidados e o apoio das empresas patrocinadoras da celebração. Ela também mencionou a participação da Espanha na Copa do Mundo Feminina de 2027, que será realizada no Brasil.
Consuelo afirmou que a seleção espanhola voltará ao país com os valores de equipe, esforço e talento coletivo. Em tom descontraído, completou: “E oxalá ganhemos”.
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