Por Claudia Godoy
Carlos Eugenio García de Alba Zepeda afirma que a sede diplomática é símbolo da aproximação entre México e Brasil e defende que o edifício continue como espaço de diálogo para as próximas gerações
A Embaixada do México em Brasília completou 50 anos de inauguração com uma celebração marcada pela memória diplomática, pelo reconhecimento à arquitetura moderna e pela perspectiva de aprofundamento das relações entre os dois países. Em discurso realizado em 8 de outubro, o embaixador mexicano Carlos Eugenio García de Alba Zepeda afirmou que a sede representa mais do que a presença oficial do México no Brasil: é também um patrimônio arquitetônico incorporado à paisagem da capital federal.

Inaugurado em 12 de outubro de 1976, o conjunto diplomático foi apresentado pelo embaixador como um símbolo da trajetória bilateral, iniciada oficialmente em 1834. “Esta Embaixada não é apenas o local onde o México exerce sua representação diplomática no Brasil; é também um tesouro arquitetônico que, há meio século, integra a paisagem urbana de Brasília”, declarou.
A cerimônia reuniu representantes do governo brasileiro e do corpo diplomático, entre eles a embaixadora Gisela Padovan, secretária de América Latina e Caribe do Itamaraty; o embaixador Marco Antonio Nakata, diretor do Instituto Guimarães Rosa; ex-embaixadores mexicanos no Brasil; o núncio apostólico e decano do corpo diplomático, Giambattista Diquattro; além de autoridades ligadas ao patrimônio histórico, aos Correios e à comunidade mexicana.

Uma história ligada à construção de Brasília
A história da Embaixada do México em Brasília começou ainda nos primeiros anos da nova capital. Em 21 de janeiro de 1960, antes da inauguração oficial de Brasília, o presidente mexicano Adolfo López Mateos visitou o então canteiro de obras e foi recebido pelo presidente Juscelino Kubitschek. Durante a visita, López Mateos recebeu simbolicamente a doação do terreno onde seria instalada a representação mexicana, no Setor de Embaixadas.
O gesto marcou a presença do México no projeto urbano e arquitetônico de Brasília desde o início. Em uma homenagem aos trabalhadores brasileiros, o presidente mexicano teria destacado a importância daqueles que, com as próprias mãos, construíam a nova cidade. A relação entre a diplomacia mexicana e a capital em formação passou, assim, a estar associada não apenas à representação oficial, mas também ao esforço coletivo que ergueu Brasília.
Anos depois, em 1º de setembro de 1972, o México transferiu sua Embaixada do Rio de Janeiro para Brasília. A mudança foi conduzida pelo embaixador Juan José Torres Landa, responsável por coordenar os trabalhos que levariam à construção da nova sede diplomática.
A pedra fundamental foi lançada em 24 de julho de 1974, durante visita do presidente mexicano Luis Echeverría ao Brasil. O projeto e a obra foram desenvolvidos entre 1974 e 1976 pelos arquitetos mexicanos Teodoro González de León, Abraham Zabludovsky e Francisco Serrano. A inauguração ocorreu em 12 de outubro de 1976, data que coincidiu com a abertura da nova Basílica da Virgem de Guadalupe, na Cidade do México.
A cerimônia de inauguração teve a participação de Alfonso García Robles, embaixador do México no Brasil entre 1961 e 1964 e, naquele momento, ministro das Relações Exteriores. Em 1982, García Robles receberia o Prêmio Nobel da Paz por sua contribuição à causa do desarmamento, especialmente por seu papel na elaboração e assinatura do Tratado de Tlatelolco, que transformou a América Latina e o Caribe na primeira região do mundo livre de armas nucleares.

Arquitetura integrada ao terreno
O projeto da Embaixada se destaca pela maneira como incorpora as características do terreno — uma área de dois hectares e meio, com desnível de 16 metros — em vez de tentar eliminá-las. A sede foi concebida sem barreiras físicas na fachada e com espaços que estabelecem uma relação aberta com a cidade e com seus visitantes.
Taludes, cavidades, jardins e diferentes níveis organizam a Chancelaria, a Residência Oficial e o conjunto habitacional formado por sete casas como partes de uma mesma paisagem. Até os resíduos da construção foram aproveitados nos taludes, em uma época em que Brasília ainda não dispunha de um local específico para o descarte desse material.
A topografia, portanto, deixou de ser um obstáculo e passou a integrar a própria linguagem do conjunto. Os desníveis do terreno conduzem os percursos entre os edifícios e ajudam a articular áreas de convivência, jardins e espaços de representação.
Os materiais empregados também reforçam a identidade da obra. O concreto aparente remete à tradição brutalista dos arquitetos, enquanto o ladrilho de barro vermelho estabelece uma conexão com o cerrado brasileiro. As formas, por sua vez, evocam de maneira abstrata a monumentalidade da arquitetura pré-hispânica mexicana.
“Não estamos, obviamente, diante de uma reprodução arqueológica. Estamos diante de uma primorosa reinterpretação moderna de um vestígio arquitetônico”, afirmou o embaixador. Segundo ele, mesmo sem a identificação escrita na fachada, o edifício seria reconhecido como uma representação do México.
Pórtico, símbolos e identidade mexicana
O grande pórtico é um dos elementos centrais do conjunto. Suas colunas evocam referências monumentais da tradição mexicana, enquanto a composição arquitetônica remete, de forma abstrata, à herança pré-colombiana do país.
No espaço, uma réplica de uma cabeça olmeca reforça a presença simbólica do México na capital brasileira. A peça, associada à antiga cultura olmeca e às regiões de Veracruz e Tabasco, funciona como um marco visual da identidade mexicana e expressa a ideia de abertura do país ao Brasil e à sociedade brasileira.
A combinação entre concreto, barro, jardins, pórticos e esculturas faz da Embaixada uma obra que articula arquitetura, paisagem e diplomacia. A representação mexicana não se limita, assim, ao interior da Chancelaria: está inscrita na forma como o edifício se apresenta à cidade.
Um complexo voltado para a cultura
Além da Chancelaria e da Residência Oficial, o complexo abriga o Espaço Cultural Alfonso Reyes, área pública destinada à aproximação entre as culturas mexicana e brasileira. O espaço recebe atividades culturais e funciona como ponto de encontro para exposições, palestras, apresentações e outras iniciativas de intercâmbio.
No centro do complexo está a Residência Oficial. O conjunto habitacional inclui sete casas funcionais, organizadas ao redor de um pátio com desenhos que remetem à vida nas fazendas mexicanas. A disposição dos edifícios reforça a ideia de que a Embaixada foi pensada como um conjunto integrado, e não como uma simples sucessão de construções isoladas.
A sede é considerada uma das obras mais relevantes do Setor de Embaixadas e passou a integrar roteiros arquitetônicos e turísticos de Brasília. A obra também é reconhecida por sua importância para a arquitetura diplomática da capital e por estabelecer uma relação singular entre a tradição mexicana e a paisagem modernista brasiliense.
Cultura e diplomacia
Ao longo de cinco décadas, a Embaixada recebeu encontros políticos e diplomáticos, mas também exposições, concertos, apresentações, rodas de conversa e eventos gastronômicos. O local sediou ainda 50 celebrações do Dia Nacional do México, além de iniciativas destinadas a apresentar ao público brasileiro a literatura, a arte, a música e a culinária mexicanas.
Para García de Alba Zepeda, a programação cultural contribuiu para ampliar o entendimento entre as sociedades dos dois países e acompanhou o crescimento dos vínculos bilaterais nas áreas econômica, cultural, turística, científica e acadêmica.
O embaixador agradeceu aos antigos representantes diplomáticos, funcionários e trabalhadores que ajudaram a construir e manter a sede ao longo das décadas. Também reconheceu a contribuição dos arquitetos responsáveis pelo projeto, com menção especial a Teodoro González de León, que completaria 100 anos em 2026, a Abraham Zabludovsky e a Francisco Serrano, que acompanhou a cerimônia à distância.
Um patrimônio voltado para o futuro
A comemoração, segundo o embaixador, não deveria se limitar à lembrança do passado. A programação incluiu uma colaboração com a Rota Metropolitana de Design para estimular reflexões sobre arquitetura, urbanismo, patrimônio, cultura e vida cotidiana.
A iniciativa pretende tratar o conjunto não como uma obra concluída, mas como ponto de partida para novos debates sobre a cidade e seus espaços de representação. “Uma comemoração não deve olhar somente em direção ao passado”, afirmou García de Alba Zepeda.
Ao encerrar o discurso, o embaixador projetou a continuidade da cooperação entre México e Brasil e definiu a Embaixada como a sede dos próximos capítulos da história comum entre os dois países.
“Que esta Embaixada continue sendo, durante muitas décadas mais, um espaço privilegiado de encontro, de diálogo, de amizade e de cumplicidade”, declarou. E acrescentou o desejo de que, em 2076, as futuras gerações possam reconhecer que aqueles que participaram da celebração de 2026 souberam preservar e honrar a herança dos que conceberam e construíram o edifício.
![LOGO HORIZONTAL COLORIDO 1 [PARA FUNDO CLARO] (1)](https://bacuribrasil.com.br/wp-content/uploads/2022/12/LOGO-HORIZONTAL-COLORIDO-1-PARA-FUNDO-CLARO-1-300x132.png)











