Por Claudia Godoy
Exibição de “O Caminho de São Francisco”, de Lucas Fernandes, foi seguida por debate com o historiador Leandro Rust e participação do público
A Embaixada da Itália promoveu o lançamento de “O Caminho de São Francisco”, documentário original do documentarista Lucas Fernandes. A produção acompanha uma viagem pela Toscana, pela Úmbria e pelo Lácio, seguindo os caminhos relacionados à trajetória de São Francisco de Assis e revelando paisagens, histórias, sabores e tradições que fazem dessas regiões alguns dos territórios mais singulares da Itália.
A sessão integrou as homenagens pelos 800 anos da morte de São Francisco, que faleceu em 4 de outubro de 1226. A marca histórica tem importância especial para a Itália, onde o santo é considerado padroeiro nacional, e para a Igreja Católica, que reconhece em sua trajetória uma das expressões mais relevantes do cristianismo medieval.

Durante a abertura, o embaixador da Itália, Alessandro Cortese, destacou a presença de São Francisco na identidade cultural e espiritual do país. O santo é lembrado por sua opção pela simplicidade, pela fraternidade, pela pobreza evangélica e pelo cuidado com a criação. Sua mensagem permanece atual e continua influenciando debates sobre paz, solidariedade, preservação ambiental e diálogo entre os povos.

Uma viagem de autoconhecimento
Em entrevista realizada na Embaixada da Itália, Lucas Fernandes convidou os brasileiros a conhecerem a Via de Francisco, que definiu como “uma joia escondida nas cidades interioranas da Itália”. O documentarista explicou que sua jornada começou na Toscana e seguiu até a Úmbria e o Lácio, passando por diversos borghi — pequenas cidades históricas italianas.
Para Lucas, percorrer esse caminho representa muito mais do que conhecer novos lugares. A experiência envolve contato com as comunidades locais, gastronomia, espiritualidade e reflexão pessoal.
“É uma viagem de autoconhecimento, uma viagem para trocar experiências com pessoas locais, experimentar comidas, rezar, se conhecer e refletir sobre a vida. É uma viagem muito intensa, complexa e linda de se fazer”, afirmou.

O documentarista também recomendou o livro O Irmão de Assis, obra que apresenta a trajetória de São Francisco e seu processo de conversão. Segundo Lucas, a biografia mostra a história de um jovem que abriu mão da riqueza para abraçar a pobreza e a vida espiritual.
“É um livro que vale muito a pena ser lido, independentemente de você ser católico ou não, porque permite conhecer a vida de um homem que transformou a humanidade e transformou a Itália”, declarou.
Debate aborda a pobreza e os estigmas de São Francisco
Após a exibição, Lucas Fernandes participou de um bate-papo com o Prof. Dr. Leandro Rust, professor de História Medieval da Universidade de Brasília (UnB), e o público presente. A conversa abordou a vida de São Francisco, o contexto do mundo medieval em que ele viveu e a influência deixada pelo santo nos territórios italianos.
Entre os temas discutidos esteve a renúncia de Francisco à riqueza. De acordo com Leandro Rust, a escolha do santo não pode ser compreendida apenas como o abandono da propriedade individual. Para o historiador, a pobreza abraçada por Francisco representava uma aproximação radical com aqueles que eram rejeitados e excluídos pela sociedade medieval.
Rust destacou especialmente a relação de Francisco com as pessoas atingidas pela hanseníase, grupo submetido à marginalização e ao isolamento naquele período.
“Francisco não abraça a pobreza do próximo. Ele abraça a pobreza do outro, daquele que é o dessemelhante”, explicou o professor.
Segundo o historiador, essa atitude representava uma ruptura com o individualismo e um gesto de sensibilização diante do sofrimento alheio. A reflexão também foi relacionada aos desafios contemporâneos e à necessidade de combater a indiferença social e a exclusão.
Outro ponto discutido foi o chamado milagre dos estigmas, as feridas tradicionalmente associadas a São Francisco e interpretadas como sinais da paixão de Cristo. Leandro Rust explicou que a análise histórica do episódio apresenta dificuldades, especialmente pela ausência de referências aos estigmas na bula de canonização do santo e pela distância temporal entre os acontecimentos e alguns dos relatos preservados.
Para o professor, porém, a investigação histórica não diminui a importância de Francisco. Ainda que não seja possível comprovar documentalmente a origem das feridas, os estigmas podem ser compreendidos como símbolos de suas feridas espirituais, de seu compromisso com os que sofriam e de sua profunda identificação com o outro.
“Dizer que não há nenhum documento crível que indique que Francisco tenha recebido os estigmas não diminui a magnitude do que foi esse personagem histórico”, afirmou Rust.
Uma mensagem de fraternidade
O debate também ressaltou que o legado de São Francisco não está restrito aos grandes feitos ou aos relatos sobrenaturais. Para Leandro Rust, a força de sua mensagem aparece na ética do cuidado, na aproximação com o próximo e em gestos simples de solidariedade.
A conversa permitiu ao público conhecer novas perspectivas sobre o santo, a sociedade medieval e a permanência do pensamento franciscano nos dias atuais. O encontro também reforçou a proposta do documentário de unir viagem, cultura, história e espiritualidade.
A programação foi encerrada com um coquetel oferecido aos convidados. “O Caminho de São Francisco” será disponibilizado posteriormente na plataforma Globoplay, no canal Modo Viagem, da GNT, e no canal Lumini.
![LOGO HORIZONTAL COLORIDO 1 [PARA FUNDO CLARO] (1)](https://bacuribrasil.com.br/wp-content/uploads/2022/12/LOGO-HORIZONTAL-COLORIDO-1-PARA-FUNDO-CLARO-1-300x132.png)











