Por Claudia Godoy
Mesa temática realizada no Instituto Cervantes de Brasília reuniu pesquisadoras brasileiras e espanholas e debateu cooperação científica, equidade de gênero e desafios para o conhecimento dos oceanos
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A Embaixada da Espanha promoveu, em parceria com o Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI), o Conselho Superior de Pesquisas Científicas da Espanha (CSIC) e o Instituto Cervantes de Brasília (ICB), a mesa temática “Mulheres na Ciência Oceânica: Brasil-Espanha”. Realizada no ICB, a atividade integrou a programação prévia da 23ª Semana Nacional da Ciência e Tecnologia (SNCT) 2026, que terá como tema “Mulheres e Meninas na Ciência”.

O encontro esteve alinhado à Década da Ciência Oceânica para o Desenvolvimento Sustentável (2021–2030) e à III Conferência da Década da Ciência Oceânica. A abertura contou com a participação da diretora do Instituto Cervantes de Brasília, Rosa Sánchez-Cascado, e da embaixadora da Espanha, María Consuelo Femenía Guardiola.
Em seu discurso, a embaixadora ressaltou que a mesa representa um espaço de diálogo sobre a presença das mulheres na ciência, especialmente nas áreas relacionadas aos oceanos. María Consuelo cumprimentou a secretária Andreia Brito Latgé, responsável pela mediação do encontro, e agradeceu a participação das pesquisadoras brasileiras Micheline Carvalho Silva e Carina Costa de Oliveira.

A diplomata também destacou a presença de Verónica Arán Ponte, presidente da Associação de Cientistas Espanhóis no Brasil (ACEBRA), e de María del Carmen García Martínez, pesquisadora espanhola com ampla experiência em ciências oceânicas e ex-diretora do Instituto Espanhol de Oceanografia. Ao mencionar a travessia do Atlântico feita pela pesquisadora para participar do evento, a embaixadora definiu o oceano como uma ponte entre Espanha e Brasil.
Cooperação científica
Segundo María Consuelo, a realização da mesa é resultado do fortalecimento da cooperação científica entre os dois países. Espanha e Brasil somaram quase 30 mil publicações conjuntas entre 2013 e 2022, além de terem ampliado, nos últimos anos, os acordos entre instituições científicas e de pesquisa.
A embaixadora afirmou que a diplomacia científica é uma das prioridades da Embaixada da Espanha no Brasil e agradeceu o trabalho desenvolvido pela Consejería de Ciencia, Innovación y Universidades e pelas equipes envolvidas na cooperação bilateral.

Nesse contexto, destacou também a atuação da ACEBRA, que reúne mais de 500 associados, promove encontros científicos e desenvolve iniciativas de cooperação, entre elas um programa de bolsas de mobilidade para pesquisadores.
Ao abordar os temas da mesa, María Consuelo lembrou a frase da pesquisadora pioneira Josefina Castellví, segundo a qual “sabemos mais sobre o espaço do que sobre os oceanos”. A partir dessa reflexão, defendeu a necessidade de ampliar o conhecimento sobre as ciências oceânicas e de discutir quais espaços as mulheres já conquistaram e quais ainda precisam conquistar.
Para a embaixadora, a promoção da participação das mulheres na ciência é uma prioridade do Governo da Espanha e um eixo transversal da diplomacia científica. Ela ressaltou que o tema se articula diretamente com a agenda das ciências oceânicas e com as prioridades brasileiras.
María Consuelo também chamou atenção para a relação inseparável entre oceanos e meio ambiente. Ao citar a frase atribuída à cientista brasileira Marina Silva, de que “não existe o verde sem o azul”, destacou que a preservação ambiental depende igualmente da proteção dos mares e oceanos.

- Segundo María Consuelo, a realização da mesa é resultado do fortalecimento da cooperação científica entre os dois países. Espanha e Brasil somaram quase 30 mil publicações conjuntas entre 2013 e 2022, além de terem ampliado, nos últimos anos, os acordos entre instituições científicas e de pesquisa.
A embaixadora afirmou ainda que Brasil e Espanha compartilham desafios e linhas de atuação que podem ser desenvolvidos conjuntamente, especialmente no caminho para as iniciativas internacionais previstas para o Rio de Janeiro, em 2027. Ao encerrar sua fala, deixou uma mensagem sobre a igualdade de gênero na ciência: “A ciência não tem gênero, mas a falta de igualdade limita seu progresso.”
Andreia Brito Latgé
A mesa foi moderada pela Dra. Andreia Brito Latgé, física, professora titular e pesquisadora da Universidade Federal Fluminense (UFF), que atualmente ocupa o cargo de secretária de Políticas e Programas Estratégicos do MCTI.
Natural de Niterói (RJ) e mãe de duas filhas, Carolina e Sofia, Andreia tem graduação e mestrado em Física pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS) e doutorado pela UFF. Ao longo da carreira, foi pró-reitora de Pesquisa, Pós-Graduação e Inovação da UFF, coordenou diferentes áreas da universidade e atuou durante oito anos na Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), na área de Física e Astronomia.
Sua pesquisa concentra-se nas propriedades eletrônicas da matéria condensada, com colaborações mantidas junto a grupos de pesquisadores de diferentes países. Em 2024, foi eleita membro titular da Academia Brasileira de Ciências (ABC).
Além da trajetória acadêmica e científica, Andreia desenvolve atuação na promoção da participação das mulheres na ciência e da equidade de gênero. Durante o encontro, destacou a importância de as mulheres ocuparem posições de liderança e servirem como referência para meninas e jovens interessadas em seguir a carreira científica.
A secretária também apontou os obstáculos enfrentados por pesquisadoras e profissionais no processo de conciliação entre carreira e vida familiar. Entre os desafios mencionados estão a divisão ainda desigual das responsabilidades relacionadas à maternidade e as dificuldades associadas ao acesso a creches e escolas.
Pesquisadoras participantes
A pesquisadora Verónica Arán Ponte é professora e pesquisadora do Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) desde 2025. Mestre e doutora em Bioquímica e Biologia Molecular pelas universidades de Dundee e Glasgow, na Escócia, construiu uma trajetória internacional de pesquisa com experiências no Reino Unido e no Brasil.
Sua atuação envolve as áreas de Bioquímica, Biologia Molecular, Biologia Celular e Câncer, com ênfase em medicina personalizada e pesquisa translacional. Entre os temas de trabalho estão a biópsia líquida e o uso de novas tecnologias para o diagnóstico e o acompanhamento de pacientes com câncer, incluindo tumores cerebrais.
Além de atuar na formação de novos cientistas e participar de iniciativas de cooperação científica, Verónica é presidente e membro fundadora da ACEBRA. Mãe de Clara e Rafael, também integra o debate sobre a participação das mulheres na ciência.
A espanhola María del Carmen García Martínez, pesquisadora do Centro Oceanográfico de Málaga, é doutora em Ciências Biológicas e especialista nos impactos das mudanças climáticas no Mar Mediterrâneo. Sua trajetória inclui importantes funções na ciência oceanográfica: ela foi a primeira mulher a dirigir o Instituto Espanhol de Oceanografia (IEO) e também a primeira a liderar o Centro Oceanográfico de Málaga.
María del Carmen atua ainda na divulgação científica, na promoção da cultura oceânica e na defesa da igualdade de gênero na ciência. Participa do projeto Oceánica, que dá visibilidade às mulheres cientistas do mar e contribui para inspirar novas gerações. Também trabalha como especialista do Parlamento Europeu e participa de iniciativas internacionais relacionadas aos oceanos.
A mesa contou ainda com a participação de Micheline Carvalho Silva, da Universidade de Brasília (UnB), e de Carina Costa de Oliveira, também da UnB.
Carina é professora e pesquisadora da Universidade de Brasília, doutora em Direito Internacional pela Université Paris 2 Panthéon-Assas e realizou estudos de pós-doutorado em instituições de referência na França, no Reino Unido e na Austrália. Sua pesquisa articula Direito Internacional, Direito Ambiental e Direito do Mar, com atenção especial à governança dos oceanos.
Ao reunir especialistas de diferentes áreas e trajetórias, a atividade reforçou a importância da cooperação entre Brasil e Espanha para o avanço das ciências oceânicas, a formação de novas pesquisadoras e a construção de políticas voltadas à igualdade de gênero e à preservação dos oceanos.
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