Durante recepção em Brasília, o embaixador Zhu Qingqiao e a secretária de Ásia e Pacífico do Itamaraty, Susan Kleebank, destacaram a profundidade da relação bilateral, enquanto música e dança chinesas deram à noite uma atmosfera de rara beleza cultural
Por Claudia Godoy
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Em Brasília, a celebração dos 77 anos da fundação da República Popular da China foi também uma celebração dos vínculos que aproximam Pequim e Brasília. Realizada na noite de 24 de setembro, a recepção reuniu autoridades, diplomatas, empresários, representantes da imprensa, integrantes da comunidade chinesa e convidados de diferentes setores da sociedade.

Entre discursos que combinaram memória histórica, cooperação internacional e perspectivas econômicas, a noite ganhou uma dimensão especialmente simbólica com a apresentação de música chinesa e de dança típica executada por artistas vindos especialmente da China para o evento. A programação cultural trouxe ao encontro a riqueza de tradições milenares e transformou a solenidade diplomática em uma experiência de aproximação entre povos.

Em seu discurso, o embaixador da China no Brasil, Zhu Qingqiao, agradeceu aos brasileiros que acompanham o desenvolvimento chinês e trabalham pela amizade entre os dois países. Também dirigiu uma saudação aos compatriotas chineses radicados no Brasil, reconhecendo a importância da comunidade na construção cotidiana da relação bilateral.

Zhu descreveu a fundação da República Popular da China, em 1949, como um momento decisivo na história do país. Segundo o embaixador, sob a liderança do Partido Comunista da China, o povo chinês teria conduzido uma transformação marcada por dois feitos centrais: o crescimento econômico acelerado e a estabilidade social de longo prazo.

A partir dessa trajetória, afirmou, a China concentra seus esforços na construção de um país forte e na revitalização nacional por meio da modernização chinesa. O diplomata também destacou a autossuficiência tecnológica, o avanço da manufatura de alta qualidade, a economia digital, os serviços modernos, a inteligência artificial e a robótica como motores de uma nova etapa de desenvolvimento.

O discurso apresentou a China como uma nação que pretende combinar autonomia e abertura. O diplomata chinês afirmou que o país continuará cuidando de seus próprios assuntos, ao mesmo tempo em que oferece ao mundo oportunidades de mercado, inovação e cooperação. A inteligência artificial apareceu como um dos principais campos dessa agenda, acompanhada da defesa de uma tecnologia inclusiva, acessível e orientada para o benefício de toda a humanidade.

No plano internacional, o embaixador da China reafirmou a defesa do desenvolvimento pacífico, da não interferência nos assuntos internos de outros países, do sistema internacional centrado nas Nações Unidas e do direito internacional. Também se posicionou contra a lógica de confronto entre grandes potências e a formação de blocos rivais, defendendo o multilateralismo e uma governança global mais equilibrada.
A América Latina foi apresentada como uma região soberana, cujos povos devem definir seus próprios caminhos de desenvolvimento e suas parcerias internacionais. Zhu Qingqiao defendeu uma cooperação baseada na igualdade, no respeito mútuo e no benefício compartilhado, com projetos voltados ao desenvolvimento, à paz, ao intercâmbio civilizacional e à aproximação entre as populações.
A visão brasileira
Representando o governo brasileiro, a secretária de Ásia e Pacífico do Ministério das Relações Exteriores, Susan Kleebank, transmitiu as felicitações do Brasil pela data nacional chinesa. Em sua fala, ela afirmou que a celebração homenageia a unidade nacional da China, os valores de seu povo e uma trajetória de profundas transformações que levou o país ao protagonismo internacional.

Para Susan Kleebank, celebrar a data chinesa também significa reconhecer os avanços das relações entre China e Brasil. Em 2026, os dois países completam 52 anos de relações diplomáticas, construídas, segundo ela, sobre as bases do respeito, do entendimento mútuo e do compromisso com o progresso das duas sociedades.
A secretária destacou a atuação conjunta de Brasil e China em favor da paz, da defesa do direito internacional e do multilateralismo, especialmente em organismos como as Nações Unidas, a Organização Mundial do Comércio, o G20 e o BRICS. Também ressaltou que a China é a maior parceira comercial do Brasil há mais de duas décadas e que os dois países caminham para alcançar um novo recorde de intercâmbio comercial.
Susan descreveu a relação econômica como complementar e marcada por uma dinâmica de ganhos mútuos. O Brasil, segundo ela, contribui para a segurança alimentar chinesa como grande exportador de soja e carne bovina, além de ocupar posição relevante no fornecimento de petróleo. A parceria, afirmou, ganha importância adicional em momentos de volatilidade nos mercados internacionais de energia.
Os investimentos chineses no Brasil também foram destacados. Em 2025, o país teria sido o principal destino de investimentos produtivos chineses no mundo. A secretária citou o setor automotivo como exemplo de uma relação capaz de gerar empregos, renda e impulso industrial para o Brasil, ao mesmo tempo em que amplia a presença internacional das fabricantes chinesas.
A cooperação, porém, não se limita ao comércio e aos investimentos. Em sua fala, Susan mencionou projetos conjuntos em áreas de conhecimento e alta tecnologia, como a construção e o lançamento de satélites, a observação astronômica e o desenvolvimento de aplicações de inteligência artificial para a educação e a pesquisa.

Brasil e China também colaboram em pesquisas médicas, diagnósticos, terapias e vacinas voltadas a doenças tropicais. A transição energética, a preservação ambiental e o combate às mudanças climáticas integram igualmente a agenda bilateral.
Para Susan, essa rede de cooperação é resultado do trabalho de parlamentares, empresários, cientistas, médicos, professores, artistas, estudantes e servidores públicos dos dois países. São pessoas, afirmou, que aprenderam a atuar juntas em favor do desenvolvimento e da prosperidade de suas sociedades.
O fortalecimento do intercâmbio entre as populações também foi apontado como prioridade. A secretária destacou o acordo de isenção recíproca de vistos de curta duração, medida que tende a ampliar o turismo, os encontros acadêmicos, os negócios e as experiências pessoais entre brasileiros e chineses.

Uma noite de cultura e diplomacia
Se os discursos deram à noite a dimensão estratégica, a programação artística ofereceu seu lado mais sensível. A maravilhosa música chinesa e a dança típica apresentada por artistas vindos da China especialmente para a celebração trouxeram ao espaço diplomático uma atmosfera de elegância, movimento e emoção.

Os instrumentos, os ritmos e os gestos coreografados fizeram da cultura uma linguagem comum. Por alguns instantes, as estatísticas comerciais, os acordos multilaterais e os grandes projetos de infraestrutura deram lugar à delicadeza da arte — uma lembrança de que as relações internacionais também são construídas por aquilo que se escuta, se contempla e se compartilha.
Ao reunir história, inovação, cooperação e tradição, a celebração dos 77 anos da República Popular da China apresentou a parceria sino-brasileira como uma relação de múltiplas camadas. Há o comércio, a tecnologia, a segurança alimentar e os investimentos. Mas há também a música, a dança, o turismo, a educação e o encontro entre pessoas.
Ao final, as falas de Zhu Qingqiao e Susan Kleebank convergiram em uma mesma ideia: China e Brasil atravessam uma fase de grande proximidade e podem desempenhar papéis complementares na construção de um mundo mais justo, sustentável e cooperativo.
Entre a herança de uma civilização milenar e as promessas da inteligência artificial, entre a diplomacia de Estado e a beleza de uma dança tradicional, a celebração em Brasília desenhou o retrato de uma parceria que pretende olhar para além do presente — e construir, passo a passo, um futuro compartilhado.
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