Por Claudia Godoy
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O secretário de Europa e América do Norte do Ministério das Relações Exteriores, embaixador Roberto Abdalla, e a embaixadora da Alemanha no Brasil, Patricia Hildegard Flor, destacaram a solidez e o caráter estratégico das relações entre os dois países durante a celebração da Data Nacional alemã, realizada em Brasília. Em seus discursos, as autoridades defenderam o aprofundamento da cooperação bilateral em áreas como comércio, investimentos, desenvolvimento sustentável, inovação e governança global.



Recém-chegada ao Brasil, Patricia Flor afirmou que assumiu a missão diplomática com entusiasmo e que pretende trabalhar pelo fortalecimento da parceria estratégica.
“Queremos aprofundar a parceria estratégica entre o Brasil e a Alemanha. Queremos impulsionar a nossa cooperação em todos os campos”, declarou.
A embaixadora citou as recentes visitas de autoridades, ministros e delegações empresariais, além das consultas intergovernamentais, como sinais da importância atribuída por Berlim à relação com o Brasil. Também lembrou o significado histórico do Dia da Unidade Alemã, celebrado em 3 de outubro, data que marca a reunificação do país, em 1990.

Segundo Abdalla, a Alemanha ocupa posição consolidada entre os principais parceiros internacionais do Brasil. O país é o quarto maior parceiro comercial brasileiro e figura entre os mais relevantes investidores estrangeiros diretos no Brasil. O embaixador também ressaltou a presença de aproximadamente 1.300 empresas alemãs no país, de acordo com as câmaras de comércio e indústria bilaterais, e afirmou que São Paulo se tornou a maior praça de negócios alemã fora da Alemanha.
“A Alemanha tem posição consolidada entre os principais parceiros internacionais do Brasil”, afirmou Abdalla, ao destacar a contribuição alemã para o processo de industrialização brasileiro.
Patricia Flor avaliou que o potencial econômico da relação ainda está longe de ser plenamente explorado. Ela propôs o aprofundamento da cooperação em matérias-primas críticas e em cadeias de suprimentos confiáveis, diante da necessidade de reduzir dependências unilaterais. Na avaliação da embaixadora, a riqueza brasileira em recursos naturais pode abrir espaço para novas parcerias estratégicas.
Os dois diplomatas também mencionaram a importância do acordo de parceria entre o Mercosul e a União Europeia. As negociações tiveram início em 1999, quando a Alemanha ocupava a presidência rotativa do Conselho da União Europeia. De acordo com Abdalla, a aplicação provisória do acordo já produz resultados e poderá contribuir ainda mais para a prosperidade das duas regiões após a superação dos entraves à sua plena implementação.
Patricia Flor classificou o acordo como um marco capaz de gerar novas oportunidades para comércio, investimentos e inovação. Segundo ela, a Alemanha apoiará firmemente o processo de ratificação e implementação do entendimento.
Hannover e novos acordos
Abdalla afirmou que a parceria estratégica entre Brasil e Alemanha vem se desenvolvendo de maneira consistente desde 2002. Ele citou a retomada, em dezembro de 2023, das consultas intergovernamentais de alto nível entre os dois países, em Berlim, e destacou a realização da terceira edição do mecanismo, em abril de 2026, em Hannover.
Na mesma ocasião, foram realizados a Comissão Mista de Cooperação Econômica e o encontro econômico Brasil-Alemanha, paralelamente à Feira Industrial de Hannover, considerada a maior do mundo em seu segmento. O Brasil participou do evento como país parceiro em 2026.
De acordo com o secretário, a participação brasileira resultou em 21 acordos e anúncios em áreas consideradas prioritárias, entre elas inteligência artificial e tecnologias quânticas. Para Abdalla, os entendimentos confirmam a densidade, o dinamismo e a perspectiva de longo prazo do relacionamento bilateral.
A embaixadora também citou a participação dos chefes de governo dos dois países na abertura da Feira de Hannover como um ponto de partida para relações econômicas mais dinâmicas.
Cooperação ambiental e climática
A cooperação para o desenvolvimento sustentável foi outro eixo central dos discursos. Abdalla classificou a Alemanha como a principal parceira do Brasil em cooperação técnica e financeira na área e destacou a participação alemã em iniciativas como o Fundo Florestas Tropicais para Sempre e o Fundo Amazônia, ao qual o país se associou desde a criação, em 2008.
Patricia Flor elogiou a organização brasileira da COP30, realizada em Belém, e destacou a criação do Fundo Florestas Tropicais para Sempre. Segundo a embaixadora, a Alemanha pretende contribuir com até 1 bilhão de euros para o fundo a partir de 2027. Ela também mencionou o apoio alemão a uma estação de pesquisa climática instalada na Amazônia e manifestou expectativa de visitar a região.
Ao abordar a agenda climática, Abdalla lembrou que o Brasil sediou a Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento, a Rio-92, marco da construção do regime internacional sobre mudança do clima. Segundo ele, a Alemanha exerce atualmente papel central nessa agenda, já que Bonn abriga o secretariado da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima.
Democracia, paz e ordem internacional
Ao tratar dos desafios internacionais, os dois representantes defenderam a democracia, o Estado de Direito, os direitos humanos e o multilateralismo. Abdalla afirmou que Brasil e Alemanha compartilham uma atuação em favor da paz e do fortalecimento das instituições globais.
O secretário destacou a cooperação dos dois países no G20 e lembrou que a Alemanha foi o primeiro país a aderir à Aliança Global contra a Fome e a Pobreza, lançada durante a presidência brasileira do grupo, em 2024. Mencionou ainda a atuação conjunta no G4 — grupo formado por Brasil, Alemanha, Índia e Japão — como espaço de coordenação em defesa de uma governança global mais equitativa e representativa.
Patricia Flor afirmou que a experiência histórica da reunificação alemã e da superação de regimes autoritários reforça a importância de preservar diariamente as comunidades democráticas. Para a embaixadora, instituições fortes e cidadãos comprometidos são essenciais para assegurar democracias vigorosas.
Sobre a guerra na Ucrânia, a diplomata condenou a invasão russa e afirmou que a Alemanha permanece ao lado de seus parceiros europeus em apoio aos ucranianos. Segundo ela, a defesa do direito internacional exige uma resposta conjunta da comunidade internacional.
A embaixadora também abordou o conflito no Oriente Médio. Ela reafirmou a responsabilidade histórica da Alemanha na defesa da segurança e da existência de Israel, ao mesmo tempo em que defendeu, em convergência com o Brasil, uma solução de dois Estados como caminho para garantir paz e segurança a israelenses e palestinos. Patricia Flor ressaltou ainda a necessidade de que a ajuda humanitária chegue livremente à população palestina.
Reforma do sistema multilateral
A embaixadora avaliou que o deslocamento dos polos de poder no mundo exige uma reorientação das relações internacionais e atribuiu importância estratégica à forma como Brasil e Alemanha se posicionam diante de temas como mudança do clima, segurança energética, sistema financeiro e econômico internacional e reforma das Nações Unidas.
Ela defendeu a reforma do Conselho de Segurança da ONU e afirmou que a crise financeira enfrentada pelo sistema das Nações Unidas afeta de maneira especialmente grave os países emergentes e em desenvolvimento. Na avaliação da diplomata, a cooperação entre um país industrializado e o Brasil, descrito por ela como uma liderança global do Sul, pode ajudar a construir uma nova arquitetura multilateral, tendo a ONU como referência.
Abdalla também ressaltou os laços históricos entre os dois povos, incluindo a contribuição da imigração alemã para a formação da sociedade brasileira. Para o secretário, o inventário das realizações bilaterais é apenas uma indicação do potencial de cooperação futura.
“O inventário do que juntos concretizamos é apenas superado, em ordem de grandeza, por tudo aquilo que ainda poderemos concretizar no futuro”, declarou.
Ao encerrar sua fala, o embaixador saudou a amizade entre os dois países:
“Viva a Alemanha, viva o Brasil.”
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