Diplomacia, comércio, tecnologia e intercâmbio acadêmico estão entre os temas apresentados durante encontro promovido pela Embaixada do Cazaquistão
Por Claudia Godoy
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As declarações foram feitas durante o Fórum de Amizade Cazaquistão–Brasil, realizado no Memorial Darcy Ribeiro, na Universidade de Brasília (UnB). O encontro promoveu uma conversa sobre as reformas da administração pública e as transformações em grande escala do sistema político da República do Cazaquistão, no contexto dos resultados das eleições parlamentares para o Kurultai, a Câmara Única.
A aproximação entre Brasil e Cazaquistão pode avançar em áreas como comércio, investimentos, tecnologia, educação, pesquisa e relações institucionais. Promovido pela Embaixada do Cazaquistão, o evento reuniu representantes da diplomacia, da imprensa, de instituições acadêmicas e de organizações da sociedade civil.
Durante o encontro, os participantes destacaram semelhanças entre os dois países. Brasil e Cazaquistão são as maiores economias de suas respectivas regiões — América do Sul e Ásia Central — e ocupam posições estratégicas em áreas como energia, recursos minerais, infraestrutura e tecnologia.
A expectativa manifestada no evento é que a relação bilateral deixe de se concentrar apenas nos canais diplomáticos e avance para uma rede mais ampla de contatos entre governos, parlamentos, empresas, universidades, centros de pesquisa e meios de comunicação.
“Existe, entre as duas nações, um imenso potencial de colaboração e de cooperação em todos os níveis”, afirmou um dos participantes.
Diplomacia multivetorial
A política externa do Cazaquistão foi apresentada como um possível ponto de referência para o debate brasileiro sobre autonomia estratégica. O país mantém relações com diferentes potências e procura preservar canais de diálogo com centros políticos e econômicos distintos, sem aderir automaticamente a um único bloco de influência.
Essa abordagem, conhecida como diplomacia multivetorial, ganhou importância em um cenário marcado pela competição entre grandes potências, pela reorganização das cadeias de suprimento e pela disputa por tecnologias estratégicas.
Segundo o embaixador do Cazaquistão no Brasil, Bolat Nussupov, os dois países compartilham compromissos com a soberania, o desenvolvimento sustentável, a cooperação internacional e o respeito à multipolaridade. O diplomata defendeu o aumento dos contatos entre instituições governamentais, parlamentos, especialistas e comunidades acadêmicas.
Para os participantes, a experiência cazaque pode oferecer elementos ao debate brasileiro sobre diversificação de parcerias e preservação de margem de manobra na política externa. Eles ressaltaram, porém, que os dois países possuem sistemas políticos, economias e contextos regionais diferentes.
Comércio, investimentos e tecnologia
A ampliação do comércio e dos investimentos foi apontada como uma das principais oportunidades da relação bilateral. O Cazaquistão foi apresentado como uma possível porta de entrada para a Ásia Central, enquanto o Brasil foi descrito como um mercado relevante e um centro econômico da América do Sul.
Entre os setores com potencial de cooperação estão minerais críticos, energia, inovação, pesquisa aplicada, transformação digital e inteligência artificial. A busca por recursos minerais estratégicos ganhou relevância diante da transição energética e da corrida internacional por insumos necessários à indústria de alta tecnologia.
O evento também destacou a infraestrutura de dados desenvolvida pelo Cazaquistão. A manutenção de centros de dados sob gestão nacional foi apresentada como parte de uma estratégia de soberania tecnológica e de atração de investimentos em inteligência artificial.
A previsibilidade regulatória foi apontada como condição para a expansão dos negócios. Na avaliação apresentada, regras claras e capacidade de resposta do Estado são fundamentais para empresas que atuam em setores de rápida transformação tecnológica.
Os participantes defenderam que a cooperação com o Brasil pode ser ampliada por meio de projetos empresariais, intercâmbios técnicos, parcerias entre universidades e iniciativas conjuntas de pesquisa. As propostas foram apresentadas como possibilidades de cooperação, sem anúncio de novos acordos comerciais específicos.
Reformas institucionais
As mudanças políticas recentes do Cazaquistão também foram discutidas durante o encontro. O referendo constitucional de 2022 foi citado como parte de um processo de reorganização das instituições do país e de redefinição das relações entre os Poderes.
De acordo com o que foi exposto no encontro, a nova Constituição entrou em vigor em 1º de julho e criou o Qurultai, novo órgão de representação política. As primeiras eleições para o conselho ocorreram em 28 de agosto, seguidas pela instalação da primeira sessão.
As reformas foram associadas à ampliação da representação popular, à alteração da dinâmica partidária e à criação de novos limites para o Poder Executivo. Também foi mencionada a transição política ocorrida nos últimos anos como parte do processo de renovação institucional.
A reorganização do Parlamento em um modelo unicameral, com representação proporcional por listas partidárias e mandatos de cinco anos, foi apresentada como uma medida capaz de reduzir obstáculos à tramitação de leis e acelerar respostas regulatórias.
Para os participantes, a reforma institucional tem relação direta com a estratégia econômica do país. A produção de normas mais rápidas e previsíveis seria especialmente importante para áreas como inteligência artificial, minerais críticos e novas tecnologias.
Jogos do Futuro e diplomacia pública
A participação da imprensa brasileira na cobertura dos Jogos do Futuro, realizados em Astana entre 29 e 31 de julho, foi destacada como exemplo de diplomacia pública. O torneio multiesportivo reuniu atletas de mais de 50 países e combinou modalidades esportivas tradicionais com competições digitais.
Elna Souza, editora-chefe do site Diplomacia Business, esteve recentemente no Cazaquistão e relatou que a competição apresentou uma dimensão mais ampla do que um evento exclusivamente tecnológico. Segundo ela, a realização do torneio permitiu ao país demonstrar sua capacidade de organização, sua infraestrutura esportiva e sua ambição de se consolidar como centro de inovação.
Os Jogos do Futuro foram descritos como uma competição de esporte figital, conceito que reúne atividades físicas e digitais. A programação incluiu modalidades como basquete, futebol, luta, dança e Dota 2, entre outras, em grandes complexos esportivos de Astana.
A editora afirmou que os esportes digitais já são praticados em mais de 115 países e que o governo cazaque vem investindo na modernização das estruturas esportivas e tecnológicas. A estratégia, segundo ela, está associada à diversificação econômica, ao desenvolvimento da economia digital e à formação de jovens.
A cobertura jornalística também foi apresentada como instrumento de aproximação entre as sociedades. A circulação de profissionais brasileiros no país contribui para ampliar o conhecimento sobre a Ásia Central e permite que o Cazaquistão divulgue suas prioridades políticas, econômicas e culturais diretamente ao público brasileiro.
Sociedade civil e clubes de amizade
O papel das organizações de amizade entre os dois países foi outro tema do encontro. Um dos participantes relatou ter trabalhado durante 14 anos com o embaixador Bolat Nussupov e destacou a criação de um Clube de Amizade Cazaquistão–Brasil, inspirado em experiência semelhante desenvolvida na Alemanha.
A proposta é reunir empresários, acadêmicos, representantes institucionais e cidadãos interessados em ampliar os contatos entre os dois países. Durante o evento, foi defendida a participação mais ativa da entidade em iniciativas comerciais, acadêmicas e culturais.
A atuação do clube também foi relacionada às atividades de uma câmara de comércio e à formação de um conselho gestor. A ideia é aproximar a diplomacia pública da promoção comercial e criar mecanismos de continuidade para projetos bilaterais.
Cazaquistão e a busca por equilíbrio regional
O Cazaquistão foi apresentado no evento como um ator capaz de preservar canais de diálogo em uma região marcada por conflitos e pela competição entre potências. O crescimento econômico, a extensão territorial, a convivência entre diferentes religiões e a defesa da paz foram citados como elementos da projeção internacional do país.
Também foram mencionadas iniciativas de assistência e desenvolvimento no Afeganistão. Segundo um dos participantes, o Cazaquistão procura contribuir para reduzir a fome e a pobreza no país e mantém interlocução com as autoridades que controlam o território.
A atuação foi apresentada como exemplo de uma diplomacia pragmática, que combina ajuda humanitária e manutenção de canais de comunicação em contextos de conflito. O diálogo com autoridades de facto, no entanto, envolve desafios políticos e de legitimidade, especialmente em situações nas quais há restrições a direitos e liberdades.
A defesa da paz foi usada como elemento de aproximação entre as sociedades brasileira e cazaque. Os participantes ressaltaram a imagem dos dois povos como sociedades pacíficas e interessadas na cooperação internacional.
Próximos passos
As discussões realizadas na UnB indicam que Brasil e Cazaquistão procuram ampliar a relação bilateral em várias frentes. Para o Cazaquistão, o Brasil representa uma oportunidade de fortalecer sua presença na América Latina e de diversificar seus vínculos fora da Ásia Central. Para o Brasil, o país pode se tornar um interlocutor relevante em uma região estratégica para energia, logística, minerais críticos e conectividade entre Europa e Ásia.
O desafio será transformar a convergência política em resultados concretos. Isso exigirá projetos identificáveis, participação empresarial, financiamento, facilitação comercial, intercâmbio acadêmico regular e coordenação entre órgãos públicos.
O evento na Universidade de Brasília reforçou a disposição de aproximar os dois países, mas também mostrou que a relação ainda depende da criação de mecanismos permanentes. A consolidação dessa agenda será medida pela capacidade de Brasil e Cazaquistão de converter o diálogo em comércio, investimentos, pesquisa e cooperação institucional.
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