Por Claudia Godoy
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Brasil e México reforçaram a disposição de ampliar a cooperação bilateral em áreas como saúde, energia, investimentos, pesquisa e produção de medicamentos e vacinas. A mensagem foi apresentada durante a celebração da data nacional mexicana em Brasília, que reuniu manifestações do embaixador do México no Brasil, Carlos García de Alba, da embaixadora Gisela Padovan e do ministro da Saúde brasileiro, Alexandre Padilha.

Ao destacar a dimensão da parceria, García de Alba afirmou que, se Brasil e México formassem um único país, a nação seria a segunda maior do mundo em extensão territorial, a terceira mais populosa e a quarta maior economia global. Para o embaixador, essa dimensão ajuda a explicar o peso estratégico da relação entre as duas nações.
“O México e o Brasil podem e devem fazer muito mais juntos, e já estamos fazendo”, afirmou García de Alba.
Uma relação com raízes históricas
A secretária de América Latina e Caribe do Itamaraty, Gisela Padovan, lembrou que as relações diplomáticas entre Brasil e México começaram oficialmente em 30 de maio de 1834, quando o Império brasileiro enviou ao governo mexicano o diplomata Duarte da Ponte Ribeiro para apresentar suas credenciais.

Considerado um dos mais eminentes diplomatas do Império, Duarte da Ponte Ribeiro é homenageado no Palácio Itamaraty. Seu busto integra a Sala dos Tratados, ao lado dos bustos de Alexandre de Gusmão, negociador do Tratado de Madri, e do Barão do Rio Branco, patrono da diplomacia brasileira.
Segundo Gisela Padovan, a presença de Duarte da Ponte Ribeiro entre essas figuras demonstra a importância atribuída ao México desde o início da política externa brasileira. Ela ressaltou, contudo, que os contatos entre os povos dos dois países são anteriores à formação das relações diplomáticas e até mesmo ao período colonial.
A embaixadora citou evidências de intercâmbios entre povos indígenas, como o uso do milho pelos guaranis e a chegada do cacau ao México. “Isso mostra que os países intercambiavam conhecimentos mesmo antes da época colonial”, afirmou.
Na avaliação da diplomata, Brasil e México podem ser considerados países irmãos por compartilharem dimensões continentais, diversidade étnica, riqueza cultural e pluralidade linguística. As duas nações também estão entre as maiores populações e economias da América Latina e do Caribe.
Em sua fala, ela ressaltou que os dois países são as maiores populações e as maiores economias da América Latina e do Caribe, além de serem nações multiétnicas, multiculturais e multilíngues.

No campo econômico, Gisela Padovan destacou o crescimento do comércio bilateral, que teria aumentado 50% nos últimos oito anos. Ela mencionou ainda investimentos recentes de empresas brasileiras no México, entre elas Embraer, Odata, Lorenzetti, Tramontina e Weg, e defendeu o fortalecimento do equilíbrio entre os investimentos dos dois países.
A cooperação bilateral, segundo a representante do Itamaraty, também se estende às áreas da saúde, energia e transição energética. Ela citou a aproximação entre os sistemas públicos de saúde, a parceria histórica entre a Pemex e a Petrobras na exploração de águas profundas e ultraprofundas e o potencial de colaboração em biocombustíveis.
Gisela ressaltou ainda a afinidade entre os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Claudia Sheinbaum, especialmente em relação à defesa da democracia, dos direitos humanos, do multilateralismo, do direito internacional e da soberania nacional. Para ela, essa convergência política complementa uma relação marcada pelo comércio, pelos investimentos e pela circulação de pessoas.
Ao final do discurso, a secretária fez um brinde ao México e celebrou a diversidade histórica e cultural do país, mencionando seus povos originários, líderes da Independência, artistas, escritores e símbolos culturais. Ela também destacou o compromisso compartilhado por Brasil e México com a integração regional e com a Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac).
“Viva o México”, declarou Gisela Padovan ao encerrar a homenagem.
Saúde como direito fundamental

O ministro da Saúde brasileiro, Alexandre Padilha, destacou o papel da independência mexicana na afirmação da soberania dos países latino-americanos e ressaltou a influência da Constituição mexicana na construção dos direitos sociais na região.

De acordo com o ministro, a Constituição mexicana foi a primeira Constituição republicana do mundo a reconhecer os direitos sociais como direitos fundamentais do ser humano. Esse legado, segundo ele, influenciou outras cartas constitucionais, incluindo a Constituição brasileira de 1988.
“A Constituição Brasileira de 1988 coloca a saúde como direito fundamental, o direito de todos e o dever do Estado”, afirmou o ministro.
O representante brasileiro também celebrou a decisão do governo da presidenta Claudia Sheinbaum de criar no México um sistema universal de saúde inspirado no Sistema Único de Saúde (SUS).
Para o ministro, a adoção do modelo brasileiro representa um momento histórico e abre espaço para uma cooperação baseada na troca de experiências. O Brasil poderá compartilhar a trajetória e os desafios do SUS, enquanto aprenderá com os esforços mexicanos para garantir o acesso universal à saúde.
O ministro anunciou que participará de uma nova agenda de trabalho no México, acompanhado por uma delegação de aproximadamente 40 integrantes, formada por representantes do governo e empresários. A missão terá como objetivo aprofundar a cooperação institucional e ampliar oportunidades no setor de saúde.
Acordo regulatório e expansão de investimentos
Entre os resultados esperados está um acordo inédito entre a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), do Brasil, e a agência reguladora mexicana. Conforme anunciado, produtos registrados no Brasil poderão ter acesso direto ao mercado mexicano, enquanto produtos registrados no México poderão ingressar diretamente no mercado brasileiro.

A medida deverá reduzir entraves regulatórios, acelerar a circulação de produtos e estimular investimentos em medicamentos, equipamentos médicos e tecnologias em saúde. “Isso vai significar uma forte expansão de investimentos”, afirmou o ministro.
García de Alba também destacou a presença de empresas mexicanas nas 28 unidades federativas brasileiras e afirmou que centenas de milhares de famílias brasileiras vivem de empregos oferecidos por essas companhias. O embaixador celebrou ainda o crescimento dos investimentos brasileiros no México e disse esperar que eles aumentem e se diversifiquem.
Na área de energia, o diplomata apontou oportunidades de cooperação entre a experiência brasileira no desenvolvimento e no uso de biocombustíveis e o processo de transformação do setor energético mexicano. “Os empresários brasileiros são muito bem-vindos ao México”, declarou.
Cinquentenário da embaixada e compromisso com a paz
A celebração também marcou o início das comemorações dos 50 anos do edifício da Embaixada do México em Brasília, inaugurado em 1976. A data será celebrada oficialmente em 12 de outubro.

A inauguração foi realizada por Alfonso García Robles, então ministro das Relações Exteriores do México e ex-embaixador no Brasil. Em 1982, ele recebeu o Prêmio Nobel da Paz por seu papel na construção do Tratado de Tlatelolco, que transformou a América Latina e o Caribe na primeira região do mundo livre de armas nucleares.
Em 14 de fevereiro de 2027, será celebrado o 60º aniversário da entrada em vigor do tratado. Ao recordar a trajetória de García Robles, o embaixador associou a história da diplomacia mexicana ao compromisso com a paz. “Sinto muita satisfação em falar de paz”, afirmou.
As declarações feitas durante a cerimônia convergiram para uma mesma mensagem: Brasil e México possuem uma relação sustentada por vínculos históricos profundos e por interesses concretos. A cooperação em saúde, energia, regulação e investimentos aparece como caminho para transformar essa proximidade em resultados para as duas sociedades.
O evento reuniu representantes da comunidade mexicana, autoridades, convidados e parceiros da missão diplomática.
Em seu discurso, García de Alba destacou que ainda há muitos desafios pela frente, entre eles o envolvimento dos governos subnacionais na relação bilateral e o fortalecimento da cooperação educacional e cultural entre os dois países.
Nesse contexto, o diplomata mencionou o lançamento da Rede Nacional de Mexicanos e Mexicanistas, criada com o objetivo de promover a mobilidade e o intercâmbio de conhecimentos, além de ampliar a visibilidade dos estudos sobre o México no meio acadêmico brasileiro e do trabalho de especialistas mexicanos no Brasil. Segundo o embaixador, a rede já conta com 64 membros, apenas cinco meses após sua criação. Ele também incentivou a participação de novos integrantes.

No âmbito cultural, García de Alba destacou a criação do Brasitlan, apresentado como o primeiro grupo de mariachi do Brasil. Formado por 11 músicos brasileiros e três mexicanos, entre eles o diretor do conjunto, o grupo tem levado a música tradicional mexicana aos ouvidos do público brasileiro. Em apenas seis meses, a iniciativa já se consolidou como uma realidade. O embaixador agradeceu à Escola de Música de Brasília e ao seu diretor, Dabson Souza, pelo apoio à formação do grupo.
Ao se dirigir à comunidade mexicana no Brasil, o embaixador agradeceu a presença e a contribuição de seus compatriotas para o fortalecimento dos laços entre os dois países. Segundo ele, há pouco mais de 7 mil mexicanos vivendo no Brasil, distribuídos pelos 26 estados e pelo Distrito Federal. García de Alba ressaltou que a comunidade está bem integrada e é bem acolhida no país.
“Obrigado, Brasil”, afirmou. Em seguida, pediu aos mexicanos que mantenham vivas suas tradições, divulguem sua cultura e representem o México com orgulho. Também destacou a importância de transmitir os costumes e o patrimônio cultural mexicano às novas gerações.
O embaixador incentivou as famílias a educarem seus filhos de maneira bilíngue, bicultural e binacional, para que eles conheçam e valorizem o México e, ao mesmo tempo, respeitem e amem o Brasil, país escolhido por muitas famílias mexicanas para viver.
García de Alba afirmou ainda que a Embaixada do México em Brasília, os consulados-gerais em São Paulo e no Rio de Janeiro e a rede de consulados honorários estão à disposição da comunidade mexicana. Atualmente, existem sete consulados honorários, que passam por um processo de revitalização e ampliação.
O diplomata também informou que, desde agosto, a embaixada oferece em seu site uma janela virtual de atendimento em saúde mental. O serviço, considerado importante e necessário, está disponível para todas as pessoas, não apenas para os cidadãos mexicanos.
“Poucas pontes são atualmente tão importantes para o México quanto aquela que nos conecta ao Brasil. O desafio agora para os dois países é fazê-la ainda mais larga e longa. Queremos mais México no Brasil e mais Brasil no México”, declarou o embaixador.
Ao encerrar o discurso, Carlos García de Alba expressou seu agradecimento aos patrocinadores e a todos os parceiros que contribuíram para a realização da celebração da data nacional mexicana.
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