
Por Claudia Godoy
O
O embaixador destacou que o futebol vem ganhando espaço entre os cubanos, especialmente entre as crianças e nos bairros, e ressaltou a presença de atletas do país em ligas estrangeiras. Também revelou sua admiração pelo futebol brasileiro e pelo Corinthians, além de afirmar que Cuba já trabalha em um projeto de cooperação esportiva que poderá aproximar ainda mais os dois países por meio do intercâmbio de atletas, treinadores e experiências.
Ao abordar os desafios enfrentados pela ilha, Victor Manuel Cairo Palomo atribuiu as dificuldades econômicas, energéticas e sociais ao bloqueio e às sanções impostas pelos Estados Unidos, mas afirmou que Cuba busca alternativas, como o investimento em energia solar e a modernização de sua economia. O embaixador também defendeu o aprofundamento da cooperação com o Brasil nas áreas de saúde, biotecnologia, educação, segurança alimentar e ciência, destacando o legado do programa Mais Médicos e a importância dos vínculos históricos entre os dois povos.
1. Claudia Godoy– Senhor Embaixador, Cuba tem uma história de amor pelo futebol que poucos conhecem — foi o primeiro país caribenho a disputar uma Copa do Mundo, em 1938, e hoje o esporte vive um momento de renovação, com atletas cubanos brilhando em ligas profissionais no exterior e até sendo convocados para a seleção nacional. Como o senhor avalia esse momento do futebol cubano? E que papel o futebol pode desempenhar como ponte cultural entre o povo cubano e o povo brasileiro, que vive e respira esse esporte?

Embaixador Victor Manuel Cairo Palomo– Cuba participou da Copa do Mundo de Futebol em 1938. Essa foi nossa única participação em uma Copa do Mundo de Futebol. O futebol é muito popular em Cuba atualmente. Muitas crianças jogam nas ruas. Posso afirmar que se joga mais futebol nos bairros cubanos do que beisebol. Temos na seleção alguns jogadores que atuam em ligas estrangeiras. No entanto, a equipe ainda não alcança os resultados necessários para se classificar para uma Copa do Mundo de seniores. No futebol de salão, temos melhores resultados. Nos classificamos para 6 das 10 edições da Copa do Mundo realizadas. Além disso, obtivemos melhores resultados no futebol de campo nas categorias sub-17, nas quais estamos classificados para a Copa do Mundo no Catar, em novembro de 2026. O futebol, paixão no Brasil, pode contribuir significativamente para o aprofundamento das relações bilaterais e para o intercâmbio cultural e a cooperação no setor esportivo entre os dois povos.

2. Claudia Godoy– Sabemos que o senhor é um grande admirador do futebol. O que o futebol representa para sua vida pessoal? Acompanha os campeonatos brasileiro e cubano? Há algum clube, jogador ou momento do futebol que o emociona de forma especial? E, com a proximidade do Brasil e de Cuba também no esporte, o senhor acredita ser possível — e desejável — estreitar laços entre as duas nações por meio de intercâmbios de atletas, treinadores e projetos esportivos conjuntos?
Embaixador Victor Manuel Cairo Palomo– Joguei futebol desde pequeno. Sempre admirei o futebol da seleção brasileira. É um esporte que me apaixona. Meu time favorito no Brasil é o Corinthians. Gostei muito das seleções brasileiras que venceram a Copa do Mundo de 1994 e a Copa de 2002. Tenho em mãos um projeto de cooperação no futebol que espero que possa ser implementado nos próximos meses.
Brasil e Cuba celebraram em junho deste ano os 40 anos do reatamento das relações diplomáticas — um marco que se soma aos 120 anos do primeiro reconhecimento diplomático entre os dois países. As relações bilaterais se caracterizam por diálogo político fluido e cooperação em saúde, agricultura, educação, cultura e esporte. Ao mesmo tempo, a região atravessa um momento geopolítico delicado, com crescente pressão dos Estados Unidos sobre os países da América Latina e do Caribe.
3. Claudia Godoy – Brasil e Cuba completaram recentemente 40 anos do reatamento de suas relações diplomáticas, construídas sobre laços históricos de amizade e cooperação. Como o senhor avalia o estado atual da relação bilateral e quais são as prioridades e novas frentes de cooperação para os próximos anos? E, num cenário regional cada vez mais conturbado, qual é o papel de Cuba na integração da América Latina e do Caribe — da CELAC ao enfrentamento conjunto das pressões externas que atingem os povos da região?
Embaixador Victor Manuel Cairo Palomo– Brasil e Cuba mantêm relações muito sólidas. Relações que têm um caráter histórico. O diálogo político é fluido e ocorre no mais alto nível. Temos vários projetos de cooperação em setores estratégicos, como segurança alimentar, saúde, educação e na área científica. O comércio bilateral enfrenta um cenário complexo devido ao bloqueio genocida e ao medo que a política agressiva dos EUA contra Cuba impõe aos empresários brasileiros, mas a importância do Brasil para a economia cubana está comprovada. Consideramos que os setores privado e estatal brasileiros têm uma grande oportunidade de acompanhar o processo de modernização do modelo econômico cubano, com benefícios para ambas as partes. Também existem convergências entre o Brasil e Cuba em temas da agenda regional, como a integração, a defesa da soberania dos povos e a paz mundial, bem como na promoção de relações internacionais mais democráticas e no respeito ao Direito Internacional. Cuba é um país defensor da integração da região por meio da CELAC. Defendemos o conceito de unidade na diversidade, como caminho para que os povos da região possam, sem interferência dos EUA, responder aos complexos desafios que enfrentamos como nações. O Brasil é um país que defende esses mesmos princípios.
4. Claudia Godoy – As últimas ações dos Estados Unidos para sufocar Cuba atingiram um de seus setores vitais: o turismo. Com as sanções anunciadas contra o Ministério do Turismo cubano e outras entidades do setor, a rede espanhola Meliá encerrou suas operações na ilha, e mais de 70% dos hotéis cubanos encontram-se fechados, segundo Havana. Como o senhor interpreta essa escalada, que atinge inclusive empresas estrangeiras que simplesmente querem trabalhar em Cuba? Que impacto isso tem na vida cotidiana do povo cubano e quais respostas o governo de Cuba está dando para proteger o turismo e as fontes de sustento da população?
Embaixador Victor Manuel Cairo Palomo– Cuba enfrenta uma guerra multidimensional. Nosso povo sofre o impacto de uma política criminosa e genocida que tenta asfixiar a economia cubana. Quase todas as semanas, somos vítimas de uma sanção ou de uma medida, como aquela mencionada pelo Ministério do Turismo. O cerco energético imposto contra Cuba provocou limitações extremas no acesso a combustíveis para abastecer voos de longo alcance, e isso teve impacto direto na redução do número de turistas que visitam Cuba. A Ordem Executiva do presidente dos EUA, de 1º de maio, que ameaça impor sanções secundárias a empresários com vínculos com Cuba, fez com que algumas empresas tivessem que se retirar do nosso país. No entanto, nosso povo, nossas praias e nossas instalações continuam lá e, com o processo de modernização econômica, há uma grande oportunidade para que o setor brasileiro possa investir nesse setor em Cuba. Os hotéis em Cuba que estão abertos contam com as garantias necessárias para que os hóspedes possam desfrutar de nossa oferta, apesar da complexa situação imposta pelo cerco energético e pelo bloqueio reforçado. O fechamento de hotéis afetou a macroeconomia, mas também milhares de famílias cubanas que tiveram que buscar outros empregos. O turismo é uma das atividades mais importantes da economia cubana há vários anos.
5. Claudia Godoy– Cuba é mundialmente reconhecida por seus indicadores educacionais: uma taxa de alfabetização superior a 99% e um sistema de ensino público, gratuito e universal que serviu de referência para o mundo, inclusive na cooperação com outros países, como o Brasil. Como o senhor avalia esse legado da educação cubana? Quais são os pilares do modelo educacional cubano que permitem alcançar resultados tão extraordinários, e como esse legado educacional — que formou profissionais altamente qualificados, inclusive os milhares de profissionais cubanos que ajudaram no Brasil — é apresentado como a maior riqueza da nação?
Embaixador Victor Manuel Cairo Palomo– A educação é um setor prioritário para o Estado cubano e constitui uma das conquistas da Revolução. As mudanças no sistema educacional cubano a partir de 1959 contribuíram para emancipar o povo cubano. A formação de um novo sujeito social, crítico e capaz de enfrentar o processo por conta própria, só foi possível por meio da criação de garantias para que as pessoas, sem distinção, tivessem igualdade de oportunidades. A campanha de alfabetização, a reforma universitária e a fundação dos primeiros centros de pesquisa científica criaram um sistema educacional sólido que apresenta resultados até hoje, mesmo em condições muito complexas. “Ser culto para ser livre”, ensinou-nos José Martí. Essa dimensão educacional cubana não se limitou ao nosso país, mas faz parte da nossa tradição internacionalista. Cuba assumiu a formação de milhares de jovens de todas as regiões do mundo como demonstração de nosso compromisso com a educação em nível internacional.
6. Claudia Godoy– Os blecautes se tornaram cada vez mais frequentes em Cuba. Desde o bloqueio de combustíveis imposto pelos Estados Unidos em janeiro, a ilha vive apagões sucessivos, alguns em escala nacional, que paralisam cidades inteiras e obrigam a população a adaptar sua rotina diária à falta de energia. O governo cubano atribui essa crise fundamentalmente ao bloqueio, apontando que o custo de poucos dias de sanção equivale à manutenção anual de todo o sistema elétrico. Qual é a situação atual da rede energética cubana? Que medidas o governo está adotando — incluindo a transformação da matriz energética e o avanço das renováveis — e que ajuda a comunidade internacional, e o Brasil em particular, pode oferecer para que o povo cubano tenha, finalmente, energia estável?

Embaixador Victor Manuel Cairo Palomo– O sistema energético cubano está sob ataque dos Estados Unidos. Cuba precisa importar combustível para manter a vitalidade da economia e o funcionamento estável do setor energético do país. Em 7 meses, recebemos apenas um único navio de petróleo bruto da Rússia. O governo dos EUA impôs sanções a entidades cubanas ligadas à comercialização de combustível. Ameaçou sancionar quem fornecer combustível a Cuba. É evidente o interesse dos EUA em causar o máximo dano possível a esse setor. Dano esse que provoca sofrimento ao povo cubano, limita o acesso ao transporte público e paralisa os serviços de saúde e a produção de alimentos. Como parte de nossa resistência criativa, Cuba está em um processo de transformação da matriz energética. Temos mais de 45 parques solares fotovoltaicos interconectados à Rede Elétrica Nacional (SEN), com uma potência instalada entre 900 e 1.000 MW. No período de fevereiro a março de 2026, a energia solar ultrapassou 20% de participação na matriz energética nacional — um salto significativo, se levarmos em conta que, no início de 2025, mal chegava a 5,8%. O petróleo bruto nacional cubano cobre apenas entre 30% e 40% da demanda. O bloqueio à entrada de diesel ou óleo combustível impediu que o Sistema dispusesse de 1.400 megawatts por dia. Estamos aumentando a produção nacional; conseguimos refinar cerca de 12 mil toneladas de nosso próprio petróleo para obter os derivados necessários, e está aumentando a contribuição do uso do gás e da biomassa. A ajuda internacional deve ter como objetivo criar as condições para aumentar a capacidade interna de Cuba de produzir energia e, no âmbito internacional, romper esse bloqueio criminoso que tenta matar aos poucos o povo cubano.
A presença de mais de 25 mil médicos cubanos no programa Mais Médicos, entre 2013 e 2018, chegou a cerca de 63 milhões de brasileiros, muitas vezes como único profissional de saúde disponível em municípios remotos e vulneráveis. Cuba também desenvolve biotecnologia e vacinas reconhecidas mundialmente, e é um dos países com maior densidade de médicos por habitante do planeta. Atualmente, uma iniciativa semelhante ao Mais Médicos não integra a agenda bilateral, embora o Comitê Binacional de Saúde tenha sido reativado.
7. Claudia Godoy– A experiência do programa Mais Médicos marcou profundamente a relação entre nossos dois povos: mais de 25 mil profissionais cubanos levaram assistência de saúde a milhões de brasileiros em municípios remotos. O senhor avalia que valeu a pena? Como está hoje a cooperação em saúde entre os dois países, com o Comitê Binacional reativado, e o senhor acredita que haja espaço — e interesse do Brasil — para uma nova iniciativa semelhante? Além disso, que outras contribuições da ciência e da biotecnologia cubanas, como o desenvolvimento de vacinas próprias, poderiam beneficiar os países da América Latina?
Embaixador Victor Manuel Cairo Palomo– A reativação do Comitê Binacional é um passo importante. Estamos confiantes de que poderemos implementar vários dos projetos que hoje fazem parte dessa agenda. Brasil e Cuba têm potencial para aprofundar seus laços nos setores da saúde e biofarmacêutico. Um projeto como o “Mais Médico” não faz parte da agenda. É emocionante ver pessoas que ainda se lembram dos nossos médicos e que contam que a primeira vez que viram um médico foi por meio desse programa. Na minha opinião, esse é um dos projetos mais humanistas que já ocorreram na cooperação Sul-Sul ao longo dos anos em nossa região. O que Cuba e o Brasil conseguirem como resultado da cooperação científica e da produção de medicamentos será uma contribuição para a saúde regional.
8. Claudia Godoy– Cuba vive o maior êxodo migratório de sua história: mais de 800 mil cubanos migraram para os Estados Unidos nos últimos três anos, e os cubanos se tornaram, pela primeira vez, a principal nacionalidade de pedidos de refúgio no Brasil — foram mais de 41 mil solicitações em 2025. Qual é a leitura de Havana sobre esse fenômeno? O que o governo cubano está fazendo para reverter essa tendência, para manter vínculos com os cubanos que vivem no exterior e para oferecer à juventude um futuro na ilha? E como o senhor enxerga a acolhida que o Brasil vem dando a esses migrantes?
Embaixador Victor Manuel Cairo Palomo– reforço do Bloqueio contra Cuba é a causa da mobilidade dos cubanos que suscita essa questão. Vivemos em condições de guerra, e isso provoca mobilidade. Os migrantes cubanos partem por motivos econômicos. A política fascista e violadora dos direitos humanos do atual governo dos EUA contra os imigrantes provocou uma mobilidade no sentido inverso, em direção ao sul, o que explica a chegada a outros destinos que não eram habituais. Os cubanos costumam ser bem recebidos na sociedade brasileira. São pessoas trabalhadoras, com nível de escolaridade e formação profissional que lhes permitem contribuir para a sociedade brasileira. Nossos consulados estão à disposição de nossos compatriotas para os serviços e assistência consular que forem necessários.
9. Claudia Godoy– O ataque dos Estados Unidos à Venezuela, em janeiro, com o sequestro do presidente Maduro e da primeira-dama, abalou a América Latina, e 32 compatriotas seus morreram combatendo em defesa do governo venezuelano. Que lições os povos latino-americanos — em especial brasileiros e cubanos — devem extrair desse episódio? Como Cuba se prepara para responder a uma possível agressão militar, e como avalia o senhor o risco de que outros países da região venham a sofrer o mesmo destino? O que a região pode fazer, unida, para impedir que a soberania latino-americana seja suprimida?
Embaixador Victor Manuel Cairo Palomo– É um tema extremamente delicado para o nosso povo, que se mobilizou em massa para prestar homenagem aos nossos heroicos companheiros. Cuba se prepara para uma eventual intervenção militar. Somos um país com tradição de luta, com um povo que, em sua maioria, está disposto a lutar antes de trair a glória vivida e a nossa história. Somos vítimas de políticas fascistas. Hoje, pode ser Cuba. Amanhã, pode ser outro país da região. O uso da força para impor a paz é o retorno à barbárie, ao colonialismo, à escravidão. Os povos devem estar unidos para enfrentar a ameaça fascista; caso contrário, será tarde demais. A unidade é o fator-chave para enfrentar esse desafio comum chamado fascismo do imperialismo dos EUA.
10. O senhor tem falado que Cuba é alvo de uma guerra multidimensional, que inclui uma guerra mediática e digital destinada a distorcer a realidade da ilha. Como essa guerra acontece na prática — por meio de quais mecanismos e plataformas? O que a Embaixada faz para levar informações objetivas ao público brasileiro e contrapor a desinformação? E como o Brasil, com seu forte debate público sobre desinformação, pode ajudar a construir uma percepção mais equilibrada sobre Cuba?
Embaixador Victor Manuel Cairo Palomo– Sem dúvida, estamos enfrentando uma guerra multidimensional que transcende os campos convencionais da guerra. Uma guerra não convencional para destruir a soberania do nosso povo. A agressividade dos EUA contra Cuba não é novidade. No entanto, desta vez, eles utilizaram todo o seu poder de intimidação e agressão para atacar Cuba. São conhecidas as manobras para impedir que o Programa Mundial de Alimentos aprovasse o programa de Cuba. Houve pressão e chantagem contra delegados de vários países. É conhecida a mentira com a qual expulsaram as brigadas médicas cubanas de alguns países, prejudicando os níveis de saúde dessas nações. Eles se valem de sua superioridade tecnológica para criar uma imagem de Cuba que não corresponde à realidade. Querem impor uma narrativa que visa deslegitimar a Revolução cubana para justificar o genocídio e a punição coletiva. Em minhas primeiras viagens pelo Brasil, percebi que há desconhecimento sobre Cuba. Não se trata apenas de não saber o que acontece hoje, mas de repetir conceitos divulgados pela mídia ou vindos da Flórida. A Embaixada se empenha em divulgar mais sobre Cuba e em denunciar cada vez mais o que os EUA fazem contra nosso povo, com o objetivo de conscientizar a população. Há quem se oponha a nós porque não concorda com nossos princípios revolucionários, não quer justiça social, não quer que os operários, camponeses e estudantes se emancipem. Esses serão sempre adversários nesta luta de classes. Mas aqueles que buscam esses mesmos objetivos de diversas formas, queremos que nos ouçam, que tenham informações para que possam refletir e adotar posições com base nelas. Se em Cuba ocorre uma falha no sistema elétrico nacional, por que isso acontece? Quais são as causas dos problemas? Sem o bloqueio, Cuba teria capacidades inimagináveis em todos os setores da sociedade.
11. Claudia Godoy – Cuba é uma potência cultural: seu cinema, sua literatura, sua música e sua dança são reconhecidos mundialmente e influenciaram inclusive a cultura brasileira. Em um momento de crise econômica profunda, como o país preserva seu investimento na cultura? Que projetos de intercâmbio cultural entre Brasil e Cuba o senhor gostaria de ver fortalecidos — festivais de cinema, intercâmbios musicais, bolsas de estudo para artistas — e como a cultura pode ajudar a manter viva a memória histórica das novas gerações?”
Embaixador Victor Manuel Cairo Palomo– Estamos trabalhando na organização de uma semana da Cultura cubana no Brasil para o mês de novembro. Somos povos com muita história em comum. A cultura brasileira é uma referência para os cubanos e sabemos que nossa cultura é uma referência para os brasileiros. Durante nossa gestão na Missão, pretendemos continuar promovendo eventos culturais com artistas renomados, mas também com o povo brasileiro. A verdadeira riqueza de nossas relações está no vínculo permanente entre nossos povos. A cooperação nas áreas de cinema, televisão, arte e música é imprescindível.
12. Claudia Godoy– A emigração recente tem um perfil marcadamente jovem e qualificado — médicos, professores, atletas e engenheiros — e isso coloca em pauta a renovação geracional do projeto cubano. Como o jovem cubano de hoje enxerga o processo revolucionário e o futuro do país? Quais mudanças econômicas e institucionais estão sendo implementadas para oferecer à juventude perspectivas concretas de futuro na ilha, e o que Cuba faz para reter e valorizar seus talentos?
Embaixador Victor Manuel Cairo Palomo– O curioso é que só se fala dos jovens cubanos que viajam. Não se fala do valor daqueles que ficaram, que são muitos. As mudanças adotadas abrem mais espaços para que esses cubanos — tanto os que vivem no exterior quanto os que vivem em Cuba — tenham oportunidades de desenvolver seus projetos em nosso país. Cuba é um país que está envelhecendo, e a juventude cubana tem o desafio de continuar construindo uma sociedade mais justa, mais socialista e mais humana.
13. Claudia Godoy– Cuba sofre com furacões cada vez mais intensos, que destruíram recentemente parte de sua já fragilizada rede elétrica — e o país contribui com uma fração ínfima das emissões globais de gases de efeito estufa. O senhor considera justa essa assimetria da crise climática? Como Cuba está transformando sua matriz energética para se tornar menos dependente de combustíveis fósseis, e que papel a cooperação com o Brasil — um dos grandes investidores mundiais em energia limpa — pode desempenhar nessa transição?
Embaixador Victor Manuel Cairo Palomo– Ou mudamos nossos modos de vida e de consumo, ou mudamos os modelos que estimulam a exploração desproporcional de nossos recursos naturais para enriquecer poucos e deixar a maioria sem acesso a serviços básicos; se não reconhecermos que o dano ecológico é resultado de séculos de exploração e que existe uma responsabilidade diferenciada e compartilhada, então, como disse Fidel, estamos fadados a desaparecer. Cuba está fortemente comprometida com a mudança da matriz energética e continuaremos avançando, mesmo nas condições mais difíceis, para alcançar esse objetivo. O Brasil tem muita experiência nesse setor e pode ser de grande ajuda para nossos planos.
14. Claudia Godoy– Cuba foi aceita como país parceiro dos BRICS em 2024 e participa das reuniões do bloco, no qual o Brasil foi protagonista recente como anfitrião da cúpula do Rio de Janeiro. Em meio à disputa entre China e Estados Unidos pela hegemonia global — e diante da pressão de Washington para que os países da região limitem suas relações com Pequim —, como Cuba enxerga seu futuro no espaço dos BRICS e do Sul Global? Que benefícios concretos essa aproximação pode trazer ao povo cubano e à região, e qual deve ser, segundo o senhor, o papel do Brasil nesse novo arranjo geopolítico?”
Embaixador Victor Manuel Cairo Palomo– Participar desse mecanismo representa uma oportunidade para uma pequena ilha como Cuba. Nossa condição de parceiro nos torna parte da construção de uma comunidade internacional mais democrática, mais defensora dos interesses do Sul Global e defensora do multilateralismo. A hegemonia dos EUA está em declínio. O fascismo dos EUA destruirá a humanidade. Isso é intolerável. Para sobreviver, a humanidade precisa de mais respeito às nossas diferenças legítimas, mais diálogo, cooperação e integração. E é esse espaço que o BRICS oferece.
![LOGO HORIZONTAL COLORIDO 1 [PARA FUNDO CLARO] (1)](https://bacuribrasil.com.br/wp-content/uploads/2022/12/LOGO-HORIZONTAL-COLORIDO-1-PARA-FUNDO-CLARO-1-300x132.png)











