Por Claudia Godoy
Em cerimônia no Teatro Nacional Cláudio Santoro, embaixador Rodolfo Nin Novoa e diretor do Mercosul do Itamaraty, Francisco Canabrava, ressaltaram a profundidade das relações entre os dois países; show de Paulina Viroga encerrou a noite com samba, candombe e homenagem a Elis Regina.
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A celebração da Data Nacional do Uruguai reuniu autoridades, representantes diplomáticos e convidados no Teatro Nacional Cláudio Santoro, em Brasília, em uma noite marcada pela reflexão histórica, pela defesa da paz e pela valorização dos vínculos entre Uruguai e Brasil. A programação teve como ponto alto a apresentação do Trio Paulina Viroga, mas também foi marcada pelos discursos do embaixador do Uruguai no Brasil, Rodolfo Nin Novoa, e do diretor do Mercosul do Itamaraty, Francisco Canabrava.
Na abertura, Nin Novoa prestou uma homenagem emocionada ao músico Rubén Rada, cuja morte havia sido recém anunciada. O diplomata destacou a importância de Rada para a música popular uruguaia, especialmente por sua contribuição à projeção do candombe e por sua aproximação com diferentes vertentes da música brasileira. Ao manifestar solidariedade à família e ao povo uruguaio, Nin Novoa ressaltou também os profundos vínculos culturais do artista com o Brasil e seu papel na aproximação entre os dois países.

O embaixador uruguaio destacou a proclamação da independência uruguaia, ocorrida em 25 de agosto de 1825, quando a Câmara de Representantes da então Província Oriental declarou a liberdade e a independência em relação ao Reino de Portugal, ao Império do Brasil e a qualquer outra autoridade estrangeira. Segundo o embaixador, a data representa o resultado de um processo histórico longo e sinuoso, que conduziu à formação do Estado uruguaio e à construção da identidade do povo uruguaio.

Ao recuperar o legado de José Artigas, o diplomata destacou o princípio de uma nação “unida, distinta e soberana”, associando a ideia à independência, à autodeterminação e à soberania. Para Nin Novoa, a celebração não se limita a um marco jurídico ou político, mas reverencia uma trajetória nacional baseada na democracia, na convivência pacífica, no respeito às instituições e na defesa dos direitos humanos.

O embaixador também abordou os desafios do cenário internacional, marcado por conflitos, crises e guerras. Em sua avaliação, a paz deve ser compreendida como o primeiro grande sonho dos povos e como uma responsabilidade permanente dos governos. O futuro, afirmou, não é um destino predeterminado, mas uma construção coletiva que exige planejamento, participação democrática e ações concretas capazes de melhorar a vida das pessoas.
Nin Novoa ressaltou ainda a vocação pacifista e integradora do Uruguai, além de princípios que orientam sua política externa, como a não ingerência nos assuntos internos dos países, a solução pacífica das controvérsias, o respeito ao direito internacional e a igualdade soberana dos Estados. Também mencionou o compromisso uruguaio com o desenvolvimento sustentável, a preservação ambiental e a expansão das energias renováveis.
Itamaraty destaca integração fronteiriça e fortalecimento do Mercosul
Representando o Ministério das Relações Exteriores do Brasil, Francisco Canabrava iniciou sua fala prestando solidariedade ao povo uruguaio pela morte do músico Rubén Rada, lembrado como um dos grandes nomes da música popular do país. O diretor do Mercosul destacou a contribuição de Rada para a projeção internacional do candombe, sua aproximação com diferentes vertentes musicais e seus profundos vínculos culturais com o Brasil.


Canabrava observou que a trajetória de Rada também simboliza a extensa fronteira entre Brasil e Uruguai, com mais de mil quilômetros de extensão. Para o representante do Itamaraty, trata-se de uma região viva e dinâmica, onde os laços de amizade e cooperação se manifestam diariamente. Ele lembrou que os dois países vêm consolidando instrumentos destinados a ampliar serviços e benefícios para as populações fronteiriças, especialmente nas áreas de saúde, educação e transporte.
O diretor do Mercosul recordou que o Uruguai foi o primeiro país com o qual o Brasil assinou, em 2002, um acordo sobre localidades fronteiriças vinculadas. A experiência serviu de referência para iniciativas semelhantes com outros países vizinhos e contribuiu para as negociações de um acordo regional do Mercosul sobre o tema, posteriormente ratificado e incorporado pelo Brasil.
Entre os projetos de infraestrutura mencionados esteve a assinatura da ordem de serviço para a dragagem da Lagoa Mirim, iniciativa que integra a construção da hidrovia Uruguai–Brasil. O empreendimento é considerado uma antiga aspiração dos dois países e deverá criar uma nova alternativa logística para o escoamento da produção regional, aproximando o norte uruguaio do sistema portuário brasileiro e aprofundando a integração econômica bilateral.
Canabrava também ressaltou que a relação entre os dois países ultrapassa a cooperação nas áreas de fronteira. No âmbito do Mercosul, Brasil e Uruguai mantêm uma integração econômica e comercial crescente, marcada pela presença de produtos de médio e alto valor agregado, com destaque para o setor automotivo. As cadeias produtivas integradas, segundo ele, geram emprego e renda e contribuem para aumentar a resistência das economias diante de crises e instabilidades externas.
Ao abordar a agenda internacional do bloco, o representante do Itamaraty destacou a negociação e a conclusão de acordos comerciais com parceiros como a União Europeia, a EFTA e Singapura, além das tratativas com Canadá e Japão. Também saudou o exercício da presidência pro tempore do Mercosul pelo Uruguai e defendeu um bloco aberto ao mundo, sem deixar de fortalecer a integração interna entre seus membros.
Em sua avaliação, a atuação conjunta dos países sul-americanos é ainda mais necessária diante do avanço do protecionismo, do enfraquecimento das regras do comércio multilateral e do aumento do uso unilateral da força. Canabrava citou o papel do Uruguai na busca de consensos e convergências no chamado Consenso de Brasília e na Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos, a Celac.
Ao concluir, o diretor do Mercosul recorreu ao escritor uruguaio Eduardo Galeano para afirmar que a utopia serve para manter os povos em movimento. A integração, afirmou, não é uma ideia abstrata, mas uma construção concreta que se manifesta em escolas, hospitais, estradas, hidrovias, empresas, cadeias produtivas e, sobretudo, nos vínculos entre as sociedades.
Paulina Viroga transforma a celebração em encontro musical
Depois dos discursos, o palco do Teatro Nacional Cláudio Santoro recebeu o Trio Paulina Viroga, em uma apresentação que traduziu musicalmente a proximidade entre Uruguai e Brasil. À frente do grupo, a cantora Paulina Viroga encantou o público com talento, beleza e carisma, conduzindo uma performance marcada pela força interpretativa e pela comunicação com a plateia.


Um dos momentos mais emocionantes da noite foi a interpretação de uma canção de Elis Regina. Paulina Viroga homenageou a grande cantora brasileira com uma leitura realizada com maestria, demonstrando sensibilidade e domínio vocal. A escolha reforçou o caráter de reciprocidade cultural da celebração: uma artista uruguaia reverenciando uma das maiores vozes da música brasileira em um evento dedicado à amizade entre os dois países.
O repertório também percorreu o samba e o candombe, aproximando duas expressões musicais de forte dimensão popular e percussiva. O samba representou uma homenagem direta ao país anfitrião, enquanto o candombe reafirmou a identidade cultural uruguaia e sua herança africana. A combinação dos ritmos evidenciou as conexões históricas e artísticas que atravessam a fronteira e aproximam as duas sociedades.
Com presença cênica envolvente, Paulina Viroga apresentou uma música contemporânea que dialoga com suas raízes e com diferentes tradições latino-americanas. Sua performance transformou a cerimônia em uma experiência de encontro, na qual a diplomacia foi acompanhada pela emoção da arte.
A noite no Teatro Nacional Cláudio Santoro reafirmou que as relações entre Uruguai e Brasil são construídas não apenas por acordos, obras de infraestrutura e intercâmbios comerciais, mas também por valores compartilhados e experiências culturais. O discurso de Rodolfo Nin Novoa recuperou a história e os princípios do Uruguai; a fala de Francisco Canabrava projetou os caminhos da integração; e a música de Paulina Viroga deu forma sensível a essa amizade.
Entre o samba e o candombe, entre a memória de Rubén Rada e a homenagem a Elis Regina, a Data Nacional uruguaia em Brasília celebrou uma parceria de mais de dois séculos e renovou o compromisso de ambos os países com a paz, o diálogo, a cooperação e a construção conjunta de um futuro sul-americano mais integrado.
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