quarta-feira, 5 agosto, 2026
26.7 C
Brasília

Dez anos de tequila e cachaça: Brasil e México selam novo ciclo de cooperação em evento na ApexBrasil

O

O auditório da Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil), em Brasília, foi palco nesta sexta-feira, 31 de julho de 2026, de um dos eventos mais emblemáticos do calendário bilateral entre Brasil e México. Promovido conjuntamente pela ApexBrasil, pela Embaixada do México no Brasil, pelo Instituto Brasileiro da Cachaça (IBRAC) e pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA), o evento celebrou os dez anos do Acordo para o Reconhecimento Mútuo da Tequila e da Cachaça como Indicações Geográficas e Produtos Distintivos dos dois países.

O encontro, que se estendeu das 9h às 18h, contou com uma programação densa que incluiu abertura institucional, assinatura de dois convênios estratégicos, apresentação do Anuário Setorial da Cachaça 2026, palestras de especialistas, entrega do Distintivo T (Tequila) e, ao final, uma degustação de cachaças e tequilas que reuniu as melhores produções de ambas as cadeias produtivas.

O embaixador e a “reposada amizade”
Na abertura do evento, o embaixador do México no Brasil, Carlos Eugenio García de Alba Zepeda, proferiu um discurso que percorreu a história bilateral, os marcos legais do acordo e a visão para o futuro das duas bebidas. Com o cuidado retórico de quem conhece o produto que defende, o diplomata recorreu ao vocabulário do tequila para descrever a relação entre os dois países: “Para dizer isso em termos tequileros, esta reposada amizade e añeja hermandad têm dado sempre no alvo”.

O embaixador reconstituiu a trajetória que culminou na assinatura do acordo em 25 de julho de 2016, durante a visita de Estado da então presidente Dilma Rousseff ao México, quando se reuniu com o presidente Enrique Peña Nieto. “Este acordo marcou um marco na diplomacia comercial bilateral e na cooperação cultural entre as duas economias mais grandes da América Latina e do Caribe”, afirmou, destacando que o instrumento significou “a blindagem legal de suas bebidas insignia frente à concorrência desleal”.

García de Alba foi preciso ao explicar o contexto jurídico que precedeu o acordo. A tequila já contava com denominação de origem desde 1974 e proteção global desde 1978, sob o Sistema de Lisboa da Organização Mundial da Propriedade Intelectual, além de décadas de experiência em mercados como o norte-americano e o europeu. A cachaça, por sua vez, trazia uma indicação geográfica que a protegia desde 2001, mas ainda “lutava para se livrar do rótulo genérico de rum brasileiro”, em boa medida por não possuir uma denominação de origem formal.

O diplomata detalhou os três benefícios concretos que o acordo trouxe: a exclusividade territorial (qualquer bebida rotulada como tequila no Brasil deve ser mexicana e toda cachaça no México deve ser brasileira), o controle de adulterações e falsificações, e a constituição de uma equipe bilateral ativa para monitorar o uso indevido das denominações. Além disso, o acordo se apoiou em três pilares de certidumbre comercial: a facilitação de mercado por meio de códigos tarifários específicos, a segurança jurídica com o reconhecimento mútuo do Conselho Regulador do Tequila (CRT) e do IBRAC, e a abertura de canais formais de consumo de alta gama nos setores hoteleiro e gastronômico de ambos os países.

Uma visão para o futuro: do “shot” à degustação em taça

Um dos trechos mais marcantes do discurso do embaixador foi sua reflexão sobre a imagem da tequila no Brasil. “Ainda hoje no Brasil e em muitos lugares do mundo, é preciso reconhecer que a tequila é associada à cultura do shot, à vida noturna e ao consumo fortuito, às vezes descontrolado”, disse, reconhecendo que existe um desconhecimento generalizado sobre as categorias do destilado e a diferença entre uma tequila mixta e uma tequila 100% de agave.

A chegada da tequila ao Brasil, segundo García de Alba, ocorreu de forma gradual durante o auge das exportações globais nas décadas de 1980 e 1990. Casas pioneiras como José Cuervo e Sauza foram responsáveis por introduzir as primeiras garrafas no mercado brasileiro, e a tequila não entrou como um trago direito, mas sim impulsionada pela popularidade internacional do coquetel Margarita em bares de São Paulo e Rio de Janeiro.

O embaixador propôs uma mudança de paradigma no consumo: “É necessário mudar o ritual do shot pelo gole, o gole pelo sorvo, ensinando a degustar a tequila na taça, como se faz com a boa cachaça, com o vinho ou com o uísque — bebidas às quais não se pede nada emprestado”. A estratégia passaria pela introdução da tequila na alta gastronomia mexicana e na coquetelaria autoral brasileira, demonstrando sua versatilidade muito além da clássica Margarita.

Foi nesse contexto que o embaixador fez menção ao Distintivo T, programa do CRT que reconhece estabelecimentos comprometidos com a cultura autêntica do tequila. “Daí o mérito do Distintivo T”, concluiu, antes de encerrar com uma imagem poética: “que nestes dias de comemoração e celebração do acordo, fiquem plantados solidamente o agave e a cana-de-açúcar, para que brasileiros e mexicanos desfrutem a tequila e a cachaça como duas grandes bebidas que irmandam o Brasil e o México”.

A síntese dessa década de cooperação foi ainda mais direta: “Nem a tequila deslocou a cachaça, nem poderia, nem a cachaça deslocou a tequila, nem poderia. Complementaram-se, mas podem e devem fazê-lo melhor”, afirmou García de Alba, sublinhando que o acordo demonstrou que os dois países podem coordenar agências técnicas para proteger setores tradicionais sem depender de um acordo comercial de escala global.

Assinatura de convênios marca novo ciclo

O evento foi marcado pela assinatura de dois instrumentos que ampliam a cooperação bilateral. O primeiro é a quarta edição do projeto setorial entre o IBRAC e a ApexBrasil, com investimento de R$ 2,63 milhões voltado à promoção comercial da cachaça em mercados estratégicos como Estados Unidos, Alemanha, França, Itália, México, Portugal e Reino Unido. O projeto inclui a iniciativa “Vivendo a Experiência da Cachaça”, que transformará representações diplomáticas brasileiras em “Embaixadas da Cachaça”.

O segundo instrumento é o Acordo Marco de Cooperação Tripartite entre o CRT, o IBRAC e a Associação Nacional dos Produtores e Integrantes da Cadeia Produtiva e de Valor da Cachaça de Alambique (ANPAQ), que dá continuidade a uma cooperação iniciada em 2009 e ratificada em 2016. O acordo prevê intercâmbio de informações sobre falsificações, programas de capacitação, iniciativas conjuntas sobre consumo responsável e cooperação em sustentabilidade.

“Este instrumento representa união, cooperação desde a diversidade, e a decisão de somar capacidades para fortalecer a proteção, a autenticidade, a rastreabilidade, a promoção responsável e a projeção internacional de nossas bebidas”, afirmou Aurelio López Rocha, presidente do CRT, durante a cerimônia de assinatura.

O presidente da ApexBrasil, Laudemir Muller, destacou o contexto desafiador do comércio internacional e a necessidade de diversificação de mercados para a cachaça, sobretudo diante de barreiras enfrentadas nos Estados Unidos. “Estamos falando da cachaça, uma bebida genuinamente brasileira, que representa nossa cultura, gera emprego, renda e leva a imagem do Brasil para o mundo”, afirmou.

Anuário 2026: recorde de estabelecimentos e exportações

A apresentação do Anuário Setorial da Cachaça 2026 (referência 2025), elaborado pelo MAPA em parceria com o IBRAC, revelou números expressivos. O Brasil encerrou 2025 com 1.538 estabelecimentos elaboradores registrados, um avanço de 21,5% em relação a 2024 — o maior crescimento da série histórica iniciada em 2018. O número de produtos registrados chegou a 8.379 e o de marcas a 11.131, enquanto 844 municípios já possuíam pelo menos um estabelecimento elaborador .

As exportações de cachaça atingiram o recorde de 7,96 milhões de litros vendidos para 76 países, um aumento de 19,4% em volume e 17,4% em valor (US$ 17,07 milhões). Os Estados Unidos permanecem como o principal mercado em valor, com cerca de 24% das exportações, enquanto o Paraguai lidera em volume embarcado. No entanto, o volume total de produção declarado recuou 15,77%, somando 234,48 milhões de litros.

Indicador 2024 2025 Variação Estabelecimentos registrados 1.266 1.538 +21,5% Produtos registrados 7.223 8.379 +16,0% Marcas vinculadas 9.528 11.131 +16,8% Municípios com estabelecimentos 735 844 +14,8% Exportações (litros) 6,67 milhões 7,96 milhões +19,4% Exportações (US$) 14,54 milhões 17,07 milhões +17,4% Produção total (litros) 278,4 milhões 234,5 milhões -15,8%
Fonte: Anuário da Cachaça 2026, MAPA/IBRAC

Distintivo T: reconhecimento à cultura do tequila no Brasil

Um dos momentos altos da programação foi a entrega do Distintivo T ao estabelecimento brasileiro Iracema Bar, em reconhecimento ao compromisso de seu pessoal com a cultura, a origem e o consumo responsável da tequila. O programa, gerido pelo CRT, capacita profissionais de bares, restaurantes e hotéis em critérios que vão desde o conhecimento das categorias do destilado até as práticas de serviço e harmonização. Entre 2021 e 2025, o Brasil importou mais de 4,12 milhões de litros de tequila, posicionando-se como um mercado de alto valor na região

.A cerimônia de entrega também contou com a presença de representantes do oriGIn América Latina, organização internacional que reúne produtores de indicações geográficas da região, reforçando a dimensão multilateral do evento.

Mercados globais: diversificação como imperativo

Os dados do mercado global de tequila reforçam a importância estratégica da parceria bilateral. Em 2025, o México exportou 397,1 milhões de litros de tequila, com os Estados Unidos absorvendo 81,6% do total — uma dependência que a indústria mexicana busca reduzir. “Na América Latina, a Colômbia tem sido nosso principal mercado, então estaremos fortalecendo nosso relacionamento com o Brasil”, afirmou Aurelio López Rocha, presidente do CRT, durante o evento.

O valor do mercado global de tequila foi avaliado em US$ 12,6 bilhões em 2025, com projeções de crescimento a uma taxa composta anual de 9% até 2033. No entanto, o setor enfrenta desafios estruturais, como a superprodução de agave — cujos preços caíram 92% por quilograma desde 2024 — e a necessidade de diversificação de mercados em regiões como Ásia, onde as tarifas de importação na Índia ultrapassam 100%.

O encontro contou com uma programação densa que incluiu abertura institucional, assinatura de dois convênios estratégicos, apresentação do Anuário Setorial da Cachaça 2026, palestras de especialistas, entrega do Distintivo T (Tequila) e, ao final, uma degustação de cachaças e tequilas que reuniu as melhores produções de ambas as cadeias produtivas

Próximos passos: fórum bilateral no México em novembro

A celebração dos dez anos em Brasília serve como prólogo para o próximo capítulo da cooperação. Em novembro de 2026, o México sediará um fórum de cooperação bilateral no âmbito da Semana da Cachaça, reunindo os principais representantes do setor de ambos os países para dar continuidade aos diálogos iniciados neste evento.

A declaração final do embaixador García de Alba resumiu o espírito da ocasião: “Há dez anos iniciamos uma colaboração inédita que agora devemos ampliar, dar muito mais visibilidade e vitalidade. A uma década da assinatura, este acordo segue operando como um modelo exitoso de propriedade intelectual bilateral”.

spot_img
spot_img
spot_img
spot_img
spot_img