sexta-feira, 5 junho, 2026
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ENTREVISTA | Embaixador de El Salvador fala sobre sistema prisional, cooperação e lições para o Brasil

Por Cláudia Godoy*

Sr. Embaixador, o senhor visitou recentemente o sistema prisional em Goiás. Quais lições do modelo de segurança de El Salvador podem ser adaptadas à realidade brasileira e o que El Salvador tem aprendido com o Brasil?

Viajar e observar de perto outras realidades sempre traz perspectiva. Em Goiás, ficou evidente que cada país tem sua própria complexidade, mas também que certos princípios são universais.

A visita ao sistema prisional em Goiás reforça algo importante: não existem soluções mágicas, mas sim decisões firmes e consistentes. O que El Salvador demonstrou é que, quando o Estado retoma o controle e atua de forma coordenada, os resultados aparecem.

Claro que cada país tem sua realidade. Não se trata de copiar modelos, mas de entender princípios: presença do Estado, aplicação da lei e continuidade das políticas.

Durante anos, El Salvador foi um exemplo de como a insegurança pode limitar tudo: o cotidiano, a economia, os sonhos.

“Não existem fórmulas prontas, existem decisões consistentes”.

El Salvador passou de um dos países mais perigosos a um dos mais seguros das Américas. Quais são os principais desafios para manter essa segurança a longo prazo?

O maior desafio não foi reduzir a violência, foi mudar uma realidade histórica. O desafio agora é não retroceder.

Manter a segurança exige instituições fortes, mas também oportunidades. Sem emprego, educação e desenvolvimento, qualquer avanço fica vulnerável.

Segurança não é só repressão. É também prevenir que a violência volte a se formar. O que realmente muda em um país quando as pessoas deixam de ter medo?

A mudança começa onde nem sempre se vê: na confiança.

Quando as pessoas deixam de viver com medo, elas voltam a ocupar espaços, retomam seus planos e enxergam futuro. A economia responde, o investimento aparece e a vida volta a circular.

Mas o verdadeiro desafio não foi mudar, é sustentar essa mudança.

O senhor mencionou em encontros com empresários que El Salvador é um hub logístico e um país desburocratizado. Quais setores específicos têm atraído mais investidores brasileiros?

El Salvador deixou de ser visto apenas como um país pequeno e passou a se posicionar como uma plataforma logística na América Central.

Investidores brasileiros têm olhado com interesse para setores como têxtil, calçados, agroindústria, produtos cárneos, logística e tecnologia. São áreas onde há oportunidades reais de crescimento.

O diferencial está na agilidade: abrir uma empresa é rápido, o ambiente regulatório é claro e há segurança jurídica. Isso faz diferença na hora de investir.

El Salvador tem se posicionado como um hub logístico graças à sua localização estratégica no centro da América Central, com acesso tanto ao Pacífico e, passando por Honduras e pela Guatemala, acesso ao Atlântico.

O ambiente de negócios desburocratizado, com processos ágeis para abertura de empresas e um marco legal favorável ao investimento estrangeiro, tem sido um diferencial importante para atrair capital latino-americano.

El Salvador utiliza o dólar como moeda oficial desde 2001. Como essa política monetária tem facilitado o comércio e a atração de investimentos estrangeiros?

A dolarização trouxe algo que investidores valorizam muito: previsibilidade.

Sem risco cambial, as empresas sabem exatamente com o que estão lidando. Isso facilita o comércio, reduz custos e dá mais segurança para investir.

Para empresas brasileiras, isso significa que as transações comerciais e a repatriação de lucros não estão sujeitas a flutuações monetárias locais.

Além disso, a dolarização facilita a integração com mercados internacionais, reduz custos de transação e transmite maior confiança institucional, fatores essenciais para decisões de investimento de longo prazo.

O senhor afirmou recentemente que “há muito mais em El Salvador do que a segurança”. O que o país oferece em termos de turismo, como a região de La Libertad, para os brasileiros?

O turismo em El Salvador vive uma transformação impressionante: de um país historicamente evitado por questões de violência, passou a registrar cerca de 4,1 milhões de visitantes internacionais em 2025, batendo recordes e movimentando bilhões de dólares. Para um estado com seis milhões de habitantes, do tamanho de Sergipe, isso é uma grande conquista.

El Salvador oferece uma proposta turística diversa e autêntica. A região de La Libertad é um dos destinos mais destacados, reconhecida internacionalmente por suas praias de surfe de classe mundial, como El Tunco e Punta Roca.

Além do surfe, o país conta com sítios arqueológicos maias, como Joya de Cerén, Patrimônio Mundial da UNESCO, vulcões acessíveis, lagos de cratera, gastronomia típica e uma rica cultura artesanal.

Para o turista brasileiro, El Salvador representa uma experiência centro-americana autêntica, acessível e em crescente desenvolvimento de infraestrutura turística.

A embaixada tem promovido o café Pacamara, destacando-o como conexão entre os povos. Como El Salvador projeta sua cultura cafeeira no mercado brasileiro?

O café Pacamara é quase uma metáfora da relação entre El Salvador e o Brasil.

O café Pacamara é uma variedade exclusiva de El Salvador, resultado do cruzamento entre as variedades Pacas e Maragogipe, esta última de origem brasileira, o que o torna um símbolo natural da conexão entre os dois povos.

El Salvador projeta sua cultura cafeeira no Brasil por meio da diplomacia gastronômica, da participação em feiras e eventos em Brasília e do posicionamento do Pacamara no segmento de cafés especiais de alta qualidade.

Considerando a adoção do Bitcoin, como o governo salvadorenho vê o papel das criptomoedas na modernização da economia?

El Salvador tem buscado inovar no setor financeiro digital por uma combinação de necessidade econômica e estratégia política. Uma das principais razões é o baixo nível de inclusão bancária: grande parte da população não possui conta em banco, mas tem acesso a telefones móveis. Isso abre espaço para soluções digitais mais acessíveis.

Outro fator central é a forte dependência das remessas enviadas do exterior, que representam uma parte significativa da economia, aproximadamente mais do 24% do PIB. As tecnologias digitais, como o uso do Bitcoin, foram vistas como uma forma de reduzir custos de transferência e tornar esse fluxo mais eficiente.

Além disso, o governo tem promovido essa inovação como uma estratégia para atrair investimentos e posicionar o país como um líder em tecnologia financeira. Trata-se não apenas de modernização econômica, mas também de uma forma de projetar uma nova imagem internacional, uma ferramenta de marketing nacional.

No entanto, apesar dos avanços, ainda existem desafios importantes. O caso de El Salvador mostra como a inovação financeira pode surgir da necessidade e da busca por novas oportunidades.

A adoção do Bitcoin foi uma decisão ousada e intencional.

Esse ambiente tem sido um fator-chave para o crescimento do setor e para o posicionamento do país como um polo emergente de inovação financeira na América Latina.

 

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