Por Claudia Godoy
Quando em 28 de outubro de 1492 um homem judeu chamado Cristóvão Colombo chegou a Cuba escreveu no seu diário: “Esta é a terra mais bela que os olhos humanos já viram”. Ele estava acompanhado de outros dois homens também judeus convertidos ao cristianismo. Eram de confiança de Colombo e foram encarregados de adentrar no território cubano em busca de ouro. Luís Torres e Rodrigo de Xeres não encontraram o metal, mas relataram a tranquilidade e o hábito dos habitantes locais de enrolar folhas secas nas quais ateavam fogo para colocar na boca e tragar. Era o tabaco cubano que hoje perfuma o mundo com seu odor característico, livre de transgênia e agrotóxicos.

A coragem destes homens sobrevive até hoje em Cuba na comunidade hebreia de Havana. Entrevistei o rabino Yacob Berezniak Hernández na Sinagoga Adath Israel, onde ele, que tem apenas 41 anos, vive com a família formada por três filhos e a esposa. Formado em engenharia de telecomunicações e microeletrônica, Berezniak me conta que estudou na Universidade de Havana. Sua esposa é graduada em Filosofia e também estudou na mesma universidade que ele. “Temos educação profissional, mas neste momento nos dedicamos cem por cento à comunidade hebreia. Temos múltiplas responsabilidades. Não temos tempo para nos dedicar a outro tipo de trabalho”, afirma o rabino, acrescentando que comanda a Sinagoga para atender as necessidades dos serviços religiosos, questões relacionadas à carne “koscher” e também ao cemitério e serviços fúnebres quando as pessoas falecem.
Cerca de 50 famílias de Havana e do interior de Cuba são atendidas pela Sinagoga Adath Israel. O governo cubano auxilia a jornada da comunidade judaica facilitando desde à importação de alimentos “koscher”. Até a produção de carne produzida nos padrões da regras religiosas deles recebeu o aval ainda do presidente Fidel Castro.
Nesta ilha que parece ter a geografia retocada por traços de anjos, as garras obsessivas da Inquisição estiveram presentes. Em 1519 vários judeus convertidos ao cristianismo foram acusados de guardar sua crença judaica em segredo. Hoje, a história mudou. Berezniak conta que Havana é o único lugar do mundo onde não há antissemitismo. Ele não tem preocupações com segurança de si próprio ou de sua família. Não há necessidade de guardas na porta da Sinagoga como ocorre hoje em todas as partes do mundo. O rabino me conta que inclusive costuma sair pela rua com sua roupa típica ortodoxa e nunca sofreu discriminação dos outros cubanos.
De um país que já produziu a terça parte do açúcar do mundo, depois das lutas pela independência, Cuba sofre um bloqueio de décadas. Isso impede o comércio internacional, a entrada de fertilizantes para a produção de alimentos, o acesso a medicamentos e equipamentos médicos, gasolina e máquinas. Além disso, o turismo sofre o impacto das limitações
As famílias judias presentes hoje na ilha parecem confiar no futuro de Cuba. Elas se ajudam na distribuição de alimentos gratuitos e formam uma comunidade unida. A comida deles é sofisticada, inclui biscoitos, frutas, carnes especiais para celebrações, aniversários e batizados. Todos são assistidos como se estivessem protegidos pelo mesmo pai. Pude provar uns biscoitos deliciosos, “koscher”, é claro, que a filhinha do rabino me deu. Estavam crocantes e dados com carinho parecerem ainda melhores.
A Sinagoga Adath Israel possui refeitório, salões para festas, cozinha e foi construída pela família de Yacob Berezniak Hernández. A organização do local sagrado mostra uma Cuba diferente daquele país do século 18, quando livros editados no exterior eram proibidos porque pregavam outra fé ou os judeus eram proibidos de estudar na Universidade de Havana.
Segundo Berezniak, os judeus são em sua maioria nascidos em Cuba, mas de famílias que chegaram da Polônia, Alemanha e Turquia. Ele me apresenta a Sinagoga Adath Israel, que parece acomodar vários mundos dentro de um só. Até uma pequena academia de ginástica, aparentemente sem muito uso, jaz numa das salas da Sinagoga Adath.
Durante o passeio pelos vários andares da Sinagoga peço para voltar no dia seguinte para acompanhar a missa judia. Chego bem cedo e sou recebida na porta por um membro da comunidade judia que parecia me esperar. Descubro que Berezniak já havia começado a cerimônia que me parece belíssima. Ele usa tira de couro de animal “koscher”, dentro há pergaminhos com os trechos do livro sagrado deles, o Torá, em que se refere ao uso dos filactérios.
A missa dos judeus ortodoxos é chamada de serviço religioso, e é composta por orações e leituras. A cerimônia é incrivelmente linda, que privilégio tive de estar lá naquele momento. As orações são feitas em hebraico, a língua sagrada dos judeus.
Os tefilins ou filactérios enfatizam a recordação dos mandamentos e da obediência a Deus. Eles balançam o corpo num balé cooordenado enquanto recitam os mandamentos considerados sagrados para eles. Não só o rabino faz isso, como também os outros judeus que estão sentados assistindo e acompanhando tudo. Berezniak vira a cabeça quando percebe a minha presença e, mais uma vez, fico encantada e fascinada pela cena de fé inabalável daquela gente.
![LOGO HORIZONTAL COLORIDO 1 [PARA FUNDO CLARO] (1)](https://bacuribrasil.com.br/wp-content/uploads/2022/12/LOGO-HORIZONTAL-COLORIDO-1-PARA-FUNDO-CLARO-1-300x132.png)











